8 de março de 2012

#77


Existem dias assim...

Que iluminam como sóis a escuridão da alma, 
clareando a mente, refrescando os pés cansados. 

Existem dias assim...

Que revelam segredos guardados a sete chaves no peito, 
dores que brilham como faróis, 
e sacrificam a pele da memória.

São assim meus dias, 
ora cobrindo minhas feridas de esperança de um reencontro, 
ora restaurando a fé nos versos que abrem caminhos.

Marcello Lopes

4 de março de 2012

#76


Construir uma história é juntar centenas de pequenas estórias, retratos e instantes apaixonados. Construir um diário onde as palavras sejam repletas de desejo, de sentimentos é uma tarefa das mais árduas, e nada melhor que escrever a 4 mãos.

As palavras nos engolem por inteiro, através delas buscamos a tranquilidade, o desespero da paixão e também o sonho de dar sentido à vida, desnudando ansiedades, eclipsando medos e atordoando receios. Esse diário reconta de forma simples e direta o encontro e os desencontros de duas almas atormentadas pelo desejo de serem felizes, de terem lembranças que possam se orgulhar, repletas de sons, de cores e ventos.

Em diversos momentos a vida nos brindou com uma sucessão de viagens, de cores, frases e lágrimas que coroaram esse relacionamento, um encontro entre o sublime e o feio, entre a ventania e os versos.Um embate sem violência entre a fé raciocinada e a descrença racional.

Ainda hoje eu posso sentir o frio na barriga do primeiro encontro, da sensação de medo e de angústia quando o telefone tocou e anunciou o fracasso do encontro, e ainda mais palpável foi o vento da alegria quando a encontrei em um estacionamento de shopping, linda e inflamada.

Esse diário já nasce com meses de atraso, nasce do desejo de eternizar cada instante dessa ventania que é nosso amor. Mas não é aquela ventania que destrói tudo que alcança, é a lufada de ar que silencia os pássaros, que isola as tristezas e espera os dias vindouros.

Existe uma tempestade lá fora que faz com que vivamos o instante como a eternidade, que faz com que nossas arestas implorem aparas urgentes.

Mas não há uma queixa áspera por isso, não existe um sangramento precipitado pela distância, apenas um véu que desce impedindo que esses instantes acabem, então sento-me e escrevo com a sensação de proteger a memória de nós dois.

Nossa história começou com uma brincadeira, uma troca de gentilezas em uma manhã despretensiosa, de palavras vãs e intenções sem muitas convicções.

Em meio a risos e pretensões alheias, o interesse, o despertar na folha em branco que começou a ser escrita de uma maneira impar, sem pressa, sem expectativas.

Ela, com sarcasmo tipico de quem admira a sátira e a ironia encontradas em crônicas.

E eu com minha poesia, rica em detalhes, sonhos e manhãs branco azuladas.

Assim, aos poucos, foram surgindo dezenas, centenas, milhares de balões de pensamentos que culminaram na junção de dois mundos dispostos em rever conceitos, reler estórias e escrever novos capítulos.

Marcello Lopes

29 de fevereiro de 2012

#75



Minha mulher traz os talentos da pele, a beleza da alma, e os pés ansiosos pela trilha que se descortina diante de seus olhos.

Ao pousar seu olhar sobre as ruas desconhecidas, repletas de odores e sons novos, irá se perder em terras estrangeiras.

Minha mulher sonha em ouvir os trovadores na França, arde por caminhar entre as ruínas romanas.

Sua vida começará quando sua consciência descer até as ruas e se deixar envolver pelas luzes que dividem os bairros com fantasias em cada esquina.

Seus pés serão arrastados para as festividades noturnas de cada cidade, onde o tempo confessa sua fragilidade em cada lâmpada, e a hora exata é sempre o início de cada conversa.

Homens de feições duras, chás e livros, abismos e montanhas essa cacofonia de imagens transforma cada fotografia e arremessa sensações breves mas indeléveis no espírito.

Já posso ver seu sorriso quando escancarar as janelas recortadas de cristais, o fino tecido em estampas diversas explodindo em cores no mercado municipal.

E a cada música seus olhos observarão uma nova atitude, um sonho que se tornou realizado justamente quando o medo foi renegado, quando suas mãos traçaram no mapa a rota correta ignorando os receios e trilhas acidentadas.

Eu sou um nômade que decidiu radicar-se, permanecer cercado de livros, sons e versos, mas seu espírito, querida, se move através das brumas e inflama seu desejo de caminhar livremente.

E estarei à sua espera quando voltar de suas aventuras

Marcello Lopes

27 de fevereiro de 2012

#74

Porque milhares de pensamentos sobre você povoam na promessa que lhe fiz? 

Talvez o único momento sensato é quando perante o silêncio e o tempo, me encontro com você. 

Me aventuro a perder o foco, mas suas mãos desdobram os versos que traço, levantando bandeiras e transformando medos em pó. 

Porque milhares de sentimentos assombram meus sonhos ? 

Confundo as datas, o sono e a paixão adormecida. 

Apago a morte no espaço onde somente a nossa imagem existe.

Os instrumentos mágicos da sua alma ondulam minha inspiração. 

E rezo nas sombras benéficas da sua ausência, que o milagre cotidiano deixe de ser incompreensível
e se torne deliciosa repetição.

Marcello Lopes

21 de fevereiro de 2012

Marujo e a sereia



Eu era um homem casado com a solidão, imóvel e encoberto pelas imagens que me machucavam, e então a conheci.

Eu contemplava o mar agitado, orando por bons ventos, pedindo proteção contra as tempestades. E ela estava lá, cantando em uma pedra alta, provocando o oceano, estufando o peito e sorrindo de sua fúria inútil.

Eu atravessei seu caminho, camuflando meu interesse em pueril brincadeira, procurava nos destroços da minha vida, tesouros deixados ao céus. Segurei sua mão e na outra um punhado de areia que diante do nosso beijo escoava segredos, amontoando em nossos pés os sonhos de criança.

Sereia ornamentada de conchas nos cabelos, entre os seios o vento lhe obedecia e assim feliz, deixava seus lábios se perderem com volúpia nos meus. Nos encontramos em um comboio de nuvens, brancas de paz, oscilando amor e medo, desejando usar o coração como bússola, só para contornar os recifes e desbravar a pele.

Eu, marujo, conheço o mar de estórias daqueles que retornaram sem serem tragados pelas grandes marés, dos amores intempestivos e dos fracassos em busca de realizações.

Ela, sereia, iludida pela realidade que desmoronava seus castelos de areia. Descrente de amor, encontrou o marujo que continuava em sua busca pela realização de um amor.

Ela estava decidida a reinventar sua vida, escondendo o essencial, criando imagens e situações que dissuadiam qualquer marujo, construindo muros ao redor dos rostos, fachadas que eram máscaras, máscaras que expulsavam a esperança.

Foi um dia de céu azul, mar tranquilo, com vontade de viver atravessei a cidade, respirando a primavera que existia em suas palavras, extenuado de tanta expectativa, emudecido pelo medo de um novo cenário.

Nos abrigamos do calor, abalados pela sintonia que nos aproximava cada vez mais, perplexos com o calor que irradiava de nossa pele e no final da tarde, o milagre aconteceu, depois de pequenos jogos de sedução, a sensualidade de sereia me arrebatou e eu, julguei ler em seus lábios meu nome.

Minha sereia cantou, deliciosamente insegura mas adorável, e o tempo parou no momento em que nos beijamos, selando assim um encontro que se encharcava de alegria e planos.

Em seus gestos encontrei a mulher madura, que sabia ler meus versos e com as mãos impacientes inspirava meus desejos mais ardentes.

Os dias se passaram, ela me ajudou a levantar, despindo-me de preconceitos, conservando nos olhos o brilho e a surpresa. Desenhei em versos o espaço à sua volta, muitos balões multicoloridos imprevisíveis eram escolhidos pelas cores, ousando assim te amar em camas fosforescentes.

Continua.....

Marcello Lopes

20 de fevereiro de 2012

Tempo



O tempo arrasa o peito, devassa a alma. 

O tempo constrói e desconstrói dores, lugares e amores.

Que perda já não foi maior com o tempo, ou menor e insuficiente para esquecer sem ele ? 

As preces e lamúrias que foram deixadas para trás ainda podem ser ouvidas pelo coração que sangra, o amor que antes se afogava em desejo e inspirações, hoje luta contra o árido deserto do esquecimento, da negação e da amarga frustração.

O tempo escorre pelas mãos, não nos pertence. E nesse processo desvincula afetos, faz com quem nós sejam desatados, a estranheza ocupe o espaço antes tão amado da intimidade. 

Sem ter tempo é um caminho cego pelo presente, sofrendo pelo passado com medo do futuro.

O tempo passa fundo entre idas e vindas, carrega o sabor das descobertas sem pressa, assim o tempo passa e com ele nossas alegrias, detalhes, lágrimas e sorrisos.

O tempo cruel, passa e devassa.

Marcello Lopes

15 de fevereiro de 2012

#72



Teu nome é uma tempestade onde meu coração navega,
tuas mãos carregam a sombra da canção que ao longe se ouve.

Nada embriaga mais que teus beijos,
na ponta dos teus pés o estrondo do orgasmo é sentido.

Marcello Lopes
Foto: Randi Ingerman