9 de março de 2017

Tuas mãos - Neruda

Tuas Mãos

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.

De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

( Pablo Neruda )

2 de janeiro de 2017

À Espera dos Bárbaros - Konstantinos Kaváfis

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles.

Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

(Trecho de “À Espera dos Bárbaros”, de Konstantinos Kaváfis. Tradução de José Paulo Paes)

13 de dezembro de 2016

# 152



Observe a vida livre que ela leva, desobrigada da paixão, sem o fardo do amor, com suas sobrancelhas arqueadas como se ela abandonasse algum sonho que se desenha inutilmente do lado de fora da sua janela.

Elegante, de gestos puros e que pretende convencer à todos que ela é livre e capaz de não querer amar demais.

Em raros momentos sua armadura apresenta rachaduras, e é nesses espaços que a luz da poesia mostra que é possível o amor transbordar, ela se agita em silêncio como se lutasse contra um sentimento que grita e estala quando ela o aperta dentro de si.

Essa é sua fortaleza, não absoluta mas é onde ela se protege das ondas transparentes desse sentimento, escudo opaco que evita a interação, desvia a sintonia entre as frequências.

Rejeita a ideia de amar como apenas um fato inverossímil e assim aos poucos ela se reveste com um disfarce feito de independência e tramas superficiais que ela aproveita sem muito interesse verdadeiro.

Ela traz consigo muitos descaminhos, dores e decepções que ao longo dos anos foram diluindo a ilusão de ter e ser de alguém.

É desses momentos que ela construiu sua fortaleza, transformou um mundo mágico que dialoga de maneira inventiva mas sem envolvimento profundo.

Eu quero vê-la e entendê-la e ao seu lado tenho a sensação de conforto e felicidade, um propósito, todavia, é inevitável sua opacidade em relação ao romance. Ela cria pontos cegos, naufraga planos.

Tudo acontece entre um poema e outro, suas tentativas de fuga de se tornar opaca é paradoxal, pois eu a enxergo cada vez mais, todas as vezes em que ela tenta se esconder.

Marcello Lopes

10 de dezembro de 2016

A Máquina do Mundo - Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

(Trecho de “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade)

3 de dezembro de 2016

# 151

Meu romance aponta a combinação entre sentido e significado, o mesmo acontece com meu texto e a sua imagem, dualidade perfeita que propõe visibilidade à essa experiência.

Eu vejo o som e o silêncio exprimindo o que minha alma sente, que minhas mãos tecem mergulhando silenciosamente nessas linhas onde eu não preciso usar máscaras e ilusões.

Aqui ninguém saberá seu nome, nem receberá respostas satisfatórias, seu domínio sobre a minha paixão será transparente, uma história de caminhos cruzados onde não nos perdemos observando a partida de tanta gente.

Nem sempre o plano dá certo, contamos uma história e o poema não nasce direito, sem brilho e enigmático.

Mas me impressiona que meses depois as cores voltam e começam a chegar palavras e paisagens, sons que impressionam, contagiando e me fazendo chorar todas as vezes que as palavras brotam nas páginas, tão desconhecidas ainda, estrangeiras, vindas de algum lugar.

E a solidão naufraga, os relatos se iniciam novamente, cada um imaginando coisas bem diferentes com uma sensação de novidade, de entrega e percepção de que não precisamos ficar sozinhos, sempre teremos um poema assombroso que não nos permite parar de pensar.

São outros dedos que conhecemos, outro mundo a ser descoberto, uma proximidade que precisamos conquistar, decifrar além da incerteza da vida a imaginação alheia.

O poema nem sempre vê a luz, muitas vezes o fracasso absorve e impede que as palavras alcancem outra pessoa.

A poesia não pode ter outra finalidade a não ser iluminar certos sentimentos para o poeta ao mesmo tempo que torna a vida uma espécie de introdução ao seu próprio desejo de elucidar coisas obscuras que ele mesmo ainda não entende, despertando assim a sua interação com as letras e sentimentos.

Nessa interação a busca por iluminação acaba por conduzir o poeta à uma série de paixões, amores descontínuos, prazeres turvos, a pequena chama poética quando não controlada serve apenas para escurecer a alma, um mundo de naufrágios e sonhos mortos.

Marcello Lopes

Hugh Selwyn Mauberly - Ezra Pound

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha

Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora

Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

(Trecho de “Hugh Selwyn Mauberly”, de Ezra Pound. Tradução de A. de Campos)

15 de novembro de 2016

O Cemitério Marinho - Paul Valéry



Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
— Ó meu silêncio!… Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

(Trecho de “O Cemitério Marinho”, de Paul Valéry. Tradução de Darcy Damasceno)