3 de dezembro de 2016

# 151

Meu romance aponta a combinação entre sentido e significado, o mesmo acontece com meu texto e a sua imagem, dualidade perfeita que propõe visibilidade à essa experiência.

Eu vejo o som e o silêncio exprimindo o que minha alma sente, que minhas mãos tecem mergulhando silenciosamente nessas linhas onde eu não preciso usar máscaras e ilusões.

Aqui ninguém saberá seu nome, nem receberá respostas satisfatórias, seu domínio sobre a minha paixão será transparente, uma história de caminhos cruzados onde não nos perdemos observando a partida de tanta gente.

Nem sempre o plano dá certo, contamos uma história e o poema não nasce direito, sem brilho e enigmático.

Mas me impressiona que meses depois as cores voltam e começam a chegar palavras e paisagens, sons que impressionam, contagiando e me fazendo chorar todas as vezes que as palavras brotam nas páginas, tão desconhecidas ainda, estrangeiras, vindas de algum lugar.

E a solidão naufraga, os relatos se iniciam novamente, cada um imaginando coisas bem diferentes com uma sensação de novidade, de entrega e percepção de que não precisamos ficar sozinhos, sempre teremos um poema assombroso que não nos permite parar de pensar.

São outros dedos que conhecemos, outro mundo a ser descoberto, uma proximidade que precisamos conquistar, decifrar além da incerteza da vida a imaginação alheia.

O poema nem sempre vê a luz, muitas vezes o fracasso absorve e impede que as palavras alcancem outra pessoa.

A poesia não pode ter outra finalidade a não ser iluminar certos sentimentos para o poeta ao mesmo tempo que torna a vida uma espécie de introdução ao seu próprio desejo de elucidar coisas obscuras que ele mesmo ainda não entende, despertando assim a sua interação com as letras e sentimentos.

Nessa interação a busca por iluminação acaba por conduzir o poeta à uma série de paixões, amores descontínuos, prazeres turvos, a pequena chama poética quando não controlada serve apenas para escurecer a alma, um mundo de naufrágios e sonhos mortos.

Marcello Lopes

Hugh Selwyn Mauberly - Ezra Pound

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha

Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora

Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

(Trecho de “Hugh Selwyn Mauberly”, de Ezra Pound. Tradução de A. de Campos)

15 de novembro de 2016

O Cemitério Marinho - Paul Valéry



Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
— Ó meu silêncio!… Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

(Trecho de “O Cemitério Marinho”, de Paul Valéry. Tradução de Darcy Damasceno)

26 de novembro de 2015

Tabacaria - Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

(Trecho de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa)

4 de novembro de 2015

# 150 - Ele



Durante anos mantivemos uma sintonia inédita até hoje, revelando cumplicidade e afeto, temos um diálogo arrojado e muitas vezes extremamente carinhoso que dá testemunho do nosso amor, do esforço que fazemos para dar certo.

As afinidades entre nós foram suficientes para vencer as diferenças.

A posteridade dos meus versos se encarrega de tornar-nos ainda mais em sintonia com esse sentimento que marca nossos encontros, um amor que no início foi desprestigiado pelos amigos que esqueciam a força que um coração têm.

Superamos certas atitudes reticentes dos parentes, poetizamos a vida graças ao nosso empenho em criar amizade onde passávamos.

Como nosso amor cresce os amigos abandonam o tom vago que caracterizava suas opiniões e levantam a voz em um coro destacando nossa caminhada, os pontos positivos nos momentos cruciais em nossa vida.

Uma mulher e um homem em meio a multidão, provocando o pessimismo a cada verso, aproximando os esperançosos através de ironias sutis e versos repletos de reconhecimento.

Você, minha querida me faz transparente, se vê a minha alma nos versos que te dedico, extravaso nas linhas o que eu quero ser na vida.

Admiro sua força em responder rapidamente aos obstáculos que insistem em nos atrapalhar, adoro o jeito extraordinário que seu sorriso ressalta seus olhos.

Mesmo em nossos desentendimentos vão se esgotando melancolicamente e se findam quando deixamos o ego de lado e aceitamos a responsabilidade dos nossos erros, compondo esse diálogo poucos ressentimentos e dores esparsas.

Se nessa caminhada instigante merecemos a atenção de como procuramos durante anos nos entender, os olhos brilham convertendo a energia que circula entre nós em compreensão e transborda felicidade.

Acordamos juntos todos os dias, evidenciando a intimidade, a revelação de duas almas intensas, compatíveis e até mesmo semelhantes.

Ao abrir os olhos vejo seu corpo prometendo um querer bem, uma franqueza que me enche os olhos, o peito e a vida.

Com um sorriso no rosto, você me analisa e com sua coerência me traduz através de um emaranhado de sentimentos, desejos e imagens.

Esse reconhecimento me impede de alucinar desenfreadamente, e assim meus versos, textos e estranhezas se esforçam no intuito de melhorar a convivência.

Sim, você minha querida é linda, que ao acordar sem maquiagem, candidamente despenteada busca meu peito, aproximando o ouvido do meu coração no momento em que este quase para de felicidade, e na ausência da batida encarna a vigorosa musa que ressuscita seu poeta sem vida.

E assim, tem início mais um dia.

Marcello Lopes

7 de outubro de 2015

# 150 - Ela




Ao iniciar o dia, pego um dos seus livros de poemas e com um lápis escrevo algumas frases de aprovação, relembrando nosso romance da manhã.

Ah meu poeta!!  Você é um homem que veste o sentimento mais romântico que já conheci, escrevo na última página do livro alguns pálidos rabiscos para eternizar meu amor por você.

Muito do meu silêncio elegante que você conhece vem da falta de palavras para exemplificar o que é tê-lo na minha vida, de vez em quando minha recompensa é mansa pra tanto amor, pra tanto incêndio mas não porque eu não me exalto, mas porque eu queimo suavemente, tenho pudores em revelar meus pensamentos e ao mesmo tempo sua poesia me renova, cada verso é um movimento que minha alma absorve.

Eu me apaixono todos os dias por você, pela sua dignidade, pelos seus erros sinceros, pelos seus comentários tão autênticos.

Colho todos os dias as flores que você me dedica, virtuais ou reais mas jamais indiferentes.

Todos os outros homens foram mero exercício até sua chegada, agora eu sei que é pra valer, todos eles foram transições como diria o velho Mário.

Fico lendo seus poemas e termino afirmando que a realidade de estar com o poeta é melhor sensação de compatibilidade que nosso relacionamento pode ter.

Eu sei que nem sempre sou clara, nem sempre percebo o sutil deslumbre do verso, já me surpreendi com seus elogios fora de lugar, nos momentos mais impróprios, às vezes por mais irritada que eu esteja com você é impossível não se entusiasmar com essa comovente atitude.

Na cama observando você dormindo, percebo que meus gestos, detalhes ocasionais, e até mesmo sorrisos diferentes em meu rosto são reflexos do seu amor, do seu cuidado.

A colorida amizade e o respeito se sobrepõe às mudanças bruscas, em nós há comunhão, não só de sentimentos, mas de direção, sobretudo de ideias.

Não raro vejo amigos que antes divergiam sobre nosso futuro se emocionarem com suas atitudes, transformando o ambiente em tantos sorrisos que quase me cegam.

Hoje de manhã ao acordar seu sorriso me fez mudar as perspectivas do dia, mansamente suas mãos sobre os meus seios causaram retumbante estremecimento, essas palavras são suas meu querido, a poesia que existe em minhas palavras brotam dos seus beijos, das pequenas liberdades que seu amor me proporciona.

Libertação talvez seja destino que essa palavra seja usada quando vinculada a sua arrojada coragem em me revelar, em unir o que eu pensava que era com o que eu sou de verdade. E a partir dessas transformações diárias, esse amor em movimento nos uniu e com suavidade se instalou em nossa casa.

Poetizei a página sem saber meu querido, isso só prova o quão libertário é o poder da poesia, que sem se esconder cria um movimento agudo que penetra no peito e cria romance, paixão, obra prima.

Anos depois daquele nosso encontro seu espírito me reveste de esperança, revela em mim uma mulher totalmente insistente, que resiste e luta pelo que ela acha indispensável, você.

Marcello Lopes

13 de setembro de 2015

A Terra Desolada - T. S. Eliot

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam,
nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca.
Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

(Trecho de “Terra Desolada”, de T. S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueira)