30 de março de 2009

Fatum



Espíritos mágicos
que protegem
a natureza.
Caminham invisíveis
sob as águas
em deslumbrada vigília
num outro reino
que apenas o sonho
alcança.
Poema: Marcello Lopes
Fatum -> Nome latino para as fadas e significa destino

28 de março de 2009

Série As Musas - Euterpe

Teus cabelos coroados
por miosótis entre tufos de
fios de ouro,
e seus dedos produzindo
ondas sonoras
que encantam os sonhos.

Colorindo as areias
com lágrimas e movimento
desordens felizes de
pensamento.

Alma divina
que ao nascer
mudou formas,
memória
e a mortal história.

Que sopro maravilhoso
criado apenas pelo simples
gesto de desenrolar o tempo
pela música.

Poema: Marcello Lopes
28/03/09

Obs: Euterpe é a musa da poesia lírica.

Série As Musas - Clio



Toca essa música

que embala o dia

anunciando a fama

alcançada.


Os corpos esquecidos

desmanchados pelo tempo,

andarão pela história

as cordas estremecerão

ao alcançar todos os

lugares.


Toca essa música

em memória dos

homens eternos.


Marcello Lopes

28/03/09


Obs: Clio é a musa da História, aquela que divulga e celebra as realizações.

25 de março de 2009

BRISA MARINHA



A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.


Fugir! Fugir!


Sinto que os pássaros são livres,

Ébrios de se entregar à espuma e aos céus


[ imensos.Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,


Impede o coração de submergir no mar


Ó noites! nem a luz deserta a iluminar


Este papel vazio com seu branco anseio,

Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.


Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,

Ergue a âncora em prol das mais estranhas


[ plagas!


Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,

Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!


E é possível que os mastros, entre ondas más,

Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem


[ mas-Tros, sem mastros, nem ilhas férteis a vogar...

Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do


[ mar!
Poema : Stéphane Mallarmé
Tradução: Augusto de Campos

Minha inspiração diária


Nascido em Paris em 1842, o poeta simbolista Stéphane Mallarmé (nome literário de Étienne Mallarmé), foi professor de inglês durante cerca de 30 anos.

Seus primeiros poemas apareceram na década de 1860. O livro Hérodiade (Herodíades) é de 1869.

Em seguida, vem L'Après-Midi d'un Faune (A Tarde de um Fauno), de 1876, obra que inspirou o prelúdio homônimo do compositor Claude Debussy (1894) e foi ilustrada pelo pintor Édouard Manet ( acima).

Mallarmé, como boa parte dos poetas de sua época, começou a escrever sob a inescapável influência de Charles Baudelaire.

Consta que ele compôs seu poema "Brisa Marinha" ("A carne é triste, sim, e eu li todos os livros") depois de ler os versos devastadores de As Flores do Mal.

Durante os anos 1880, Mallarmé foi a figura central de um grupo de escritores, entre os quais o poeta Paul Valéry e os romancistas André Gide e Marcel Proust, com quem discutia sobre poesia e arte.

O poeta escreveu vários outros livros e morreu em 1898. Embora L'Après-Midi d'un Faune seja sua obra mais conhecida, o poema experimental Un Coup de Dés (Um Lance de Dados), escrito em 1897 mas só publicado postumamente, em 1914, é a obra de Mallarmé que causou mais barulho.

A permanência da obra mallarmeana é ponderável. Críticos apontam sua influência no trabalho de vários poetas importantes importantes do século XX.

Ela está, por exemplo, na poesia de Wallace Stevens (1879-1955), nos Quatro Quartetos de T.S Eliot (1888-1965) e na prosa do Finnegans Wake, de James Joyce (1882-1941).

A experimentação tipográfica de Um Lance de Dados — estruturada em torno do moto "Um lance de dados jamais abolirá o acaso" — também exerceu forte influência sobre a poesia de vanguarda do século XX.

No Brasil, os mais destacados discípulos do experimentalismo mallarmeano são os poetas concretos, que utilizaram muito das concepções do autor francês na elaboração de seus poemas e teorias literárias.

Não por acaso, os textos ao lado foram extraídos do volume Mallarmé, que reúne ensaios e traduções de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, o trio fundador da poesia concreta.

Alquimista das palavras, Mallarmé defendia teorias poéticas que iam na contramão do que era consagrado em sua época.

Não se faz um poema com idéias, mas com palavras, dizia ele. Com isso, queria assinalar que o poema deve ser visto como um objeto em si mesmo.

Ele também dizia que "um poema é um mistério cuja chave deve ser procurada pelo leitor". É com essa mesma idéia que ele fecha o seu poema experimental: "Todo Pensamento emite um Lance de Dados".

23 de março de 2009

Adolescência parte 2



Sou fã dessa espístola de Paulo aos Coríntios.


E no capítulo 13 Paulo nos fala grandiosamente sobre o amor.


Não acredito que alguém tenha decifrado o amor ( não aquele corporal, que se acaba ao menor contratempo, mas sim o amor espiritual) com tanta propriedade e não vejo nenhum poeta que tenha tido inspiração para tanto.


Escrevi isso para a minha amiga Sheila quando tinha 16 anos, e fiquei muito feliz quando recebi por e-mail essa lembrança dos primórdios dos meus escritos.


Agradeço-a pela conservação da memória.


Marcello Lopes


Adolescência



Agradeço a Sheila por ter me enviado esses poemas escaneados, pelo que me lembro eu tinha 15 ou 16 anos quando eu os escrevi, não são de minha autoria, são poemas ou frases que me marcaram e que me inspirava todos os dias.


O último é meu, e pelos poemas que eu escrevo hoje acredito que eu melhorei muito...rsrsrs


Obrigado Sheila pela lembrança.

Olho o frio

e essa tristeza que avança contra mim

vejo no reflexo do céu um sorriso

ou seria ilusão de ótica ?


Escrevo nas margens,

das folhas,

dos rios

á margem da minha vida.


Sei que enquanto viver,

a felicidade e a perfeição

serão atributos breves

instantes ínfimos.


Olho o frio

penso nos pequenos prazeres

são eles que devem ser cultivados.


A pintura do quadro muda

de acordo com as sombras que

avançam.


Ouço sons dissonantes
reverberando ao longe,

mergulho na tristeza desse dia frio

e quanto mais profundo,

mais surdo e insignificante

a vida se torna.


Relembro as horas passadas

enfrentando moinhos

salvando decepções

conquistando dissabores.


Vejo com clareza

as idéias á deriva

os sonhos que tive,

todos perdidos sem chance

de concretização.


Os poemas

já não verão a beleza de uma página,

inverno do mundo.


Então acordo.


Meus olhos fitando o abstrato

as paredes impregnadas de

lembranças,


Vi meus livros como santuários,

sendo eles que me trazem paz.


Abro a janela e encontro o sol,

anseio descobrir que laços me

mantém são.


Duvido alegremente de todas as coisas

até chegar um momento que tudo se

anima,

e as coisas são explicadas.


O sol,

descubro seu sentido

que transcende á Deus...


Que ensina a sobreviver

ao inverno

que nos ensina a dançar.


Escrevo

das mãos correm rios de palavras

uma vontade imensa de espalhar

minha voz.

meus pensamentos

simples sementes pelo chão.


Leio

como o fruto de alguém que já foi um dia

semente,

me transformando e me fazendo entender

a minha própria mente.


Recomponho meus passos

dia-a-dia

momentos inesperados

criando emoções.


No fundo são as estações

desesperadamente possíveis,

que moldaram a minha vida

fortaleceram minha fé

e definitivamente me ensinaram

sobre as minhas paixões.


Marcello Lopes

18/11/2006




EU TE AMO



Eu digo EU TE AMO

surpreendendo as vozes distorcidas,

ampliando os ambientes claustrofóbicos

atingindo a todos com as palavra

mais intrigantes.


EU TE AMO

dito como sopros abstratos,

assemelhando-se á orquestras

celestiais.


Curando feridas,

acalmando memórias perturbadas

transformando medos e frustrações.


EU TE AMO

sem grandes floreios

motivação febril

de compartilhar a verdade.


De transformar em possível

a impossibilidade de ser quem sou

e ainda achar a felicidade.


Escrevo EU TE AMO

porque nem sempre a voz

corresponde ao sentimento.


O mundo nem sempre ouve,

então escrevo para dissipar o

perigo de estar vivo e não

se levar em conta.


EU TE AMO

para que os outros saibam que

é possível,

porque a verdade não pode morrer

atravessada na garganta.


EU TE AMO

fortalece a mulher frágil,

cobre o orgulho engolido

como pedra.


Poema: Marcello Lopes

18/11/2006




21 de março de 2009

Desejo





Te desejo

entre areias,

campos e terra.

Encontrei o olhar

que me estremece,

que derrete a noite mais fria

e se perde em si mesmo.

Te desejo,

mesmo quando a vida

quieta se transforma

em instantes de completo

abandono.

Sofro a angústia irremediável

da ausência

do teu corpo-poema,

de sol de abril,

das nuvens sobre a lua.

Eu estava de olhos fechados

quando a chuva desenhou

teu amor em meu peito.

Crescem prados

e sonhos no meu corpo

quando eu te desejo assim.

Desejo as tuas mãos vivas,

forçando aberturas em

estradas antigas.

Desejo teus pés,

navegando entre

teus beijos e sons de jazz...


Desejo

e

anseio seus seios,

crescendo

subindo

revestindo

minha saudade,

bebendo dessa

felicidade.

A boca,

minha

tua

morre de sede

dos beijos

mergulhados

em gotas de orvalho.

As cores da nossa cama

paisagem das manhãs

perfume de flores.

Desejo o que principia

que entorna a imaginação

e que nunca termina

de revolver nosso

coração.

Desejo teu sorriso

sem nome

de lábios indecisos

modelados pelo vento

desfeitos pelas coisas

acontecidas,

e das noites

perdidas.

A arquitetura do nosso amor

nem areia iguala.

Te desejo simplesmente assim.


Poema: Marcello Lopes

21/03/09

Sua alma


Vi sua alma,

completamente nua.


Um retrato natural

de um ser solitário,

que desliza furtivamente

pela vida.


Contemplo a sua juventude,

com uma emoção reprimida

tentando esquecer o absurdo

da vida,

que nos afasta todos os dias.


Eu vi a sua alma,

como se fosse um fenômeno natural,

fascinado pela sua luz

que exercia um poder hipnótico

me deixei levar.


Eu reconheço que depois de

tanto sofrimento,

encontrei o maior tesouro da minha

vida,

o seu amor.


Me falta tantas coisas,

a música,

o vento

o silêncio.


Vi sua alma,

cantar saudades,

palavras

paisagens.


Fui sempre seu,

desde sempre

sempre desde o primeiro amar.


As linhas que nos sustentam

converteram-se em multidões

que nos empurravam,

falavam

procurando nos converter

em possibilidades...


Vi sua alma

conduzida pela natureza

fluida,

sem exigências

do princípio ao fim.


Permaneço sozinho

com seu perfume,

aroma de rosas

essência de felicidade

sabor de seda

desmanchando ao vento.


Sua alma,

que estremece ao toque das minhas mãos,

a memória de todo esse amor,

esquecida dos nossos corpos,

cessará na madrugada

suspirando apaixonada.


Poema: Marcello Lopes

21/03/09



Vamos voltar



Eu venho tentando redescobrir
esses sentimentos que nos
movia, que nos cegava
a vista sensata e
excitava nossa veia
apaixonada.


Vamos voltar ao tempo
que éramos sensíveis
com tanta coisa
pra compartilhar.


Não há nada de errado
em nos amarmos loucamente
só quem não se entrega de corpo e
alma é chamado de insano.


Venho tentando te encontrar
nas esquinas
nos cafés,
nas páginas em branco onde
as letras tomam conta
e os sentimentos afloram.


Vamos voltar,
sentir o que existe de
intenso,
selvagem
e puro.


Não há nada errado
em te amar assim,
de gritar teu nome
no vento entre a
eternidade e
um doce momento.


As palavras podem transformar
nossa vida,
a realidade,
a desventura de não ter
o nome suspirado,
em meio a tempestade.


Improviso em retratar
como era nosso amor,
vimos a lua nascer
desenhando sombras
em teu cabelo.


Os dias felizes,
no jardim
a alegria com a
visita da chuva,
a surpresa da canção.


Vamos voltar
á vida
de rosas,
amores e música.


Há um nome que
nos estremece,
de um lado canta
o sol
do outro os sonhos.


Se eu soubesse cantar,
na natureza viva
entre a flor e o ar,
entre mil dores
faria você voltar ?


Vamos voltar
ao aconchego,
ao frágil corpo
fadado á carências,
orvalhos
e promessas.


Hoje são as nuvens
que me acompanham,
a brevidade

dos momentos felizes,

e a fugacidade
dos meus sonhos
ainda abrigam a tua beleza
e perfume.


Vamos voltar,
aos espaços onde
os nossos afetos vislumbravam
religiosamente nossas interseções,
poemas...


Lhe dou qualquer coisa,
pois tenho a alma coberta
de noite,


de horas incertas.


Vamos voltar,
quando a tristeza
abrandar,

assim que a paisagem recuperar
o tempo,
a forma e as cores.


Vamos ouvir o sopro
da noite inteira,
das mãos procurando
um rumo,
com os olhos pousando
sobre o peito
trazendo um beijo.


Vamos voltar
sem nenhum motivo,
prendendo o tempo
sobre as asas,
com nossos passos
perdendo a saudade.


Poema: Marcello Lopes
21/03/09

Afinidade.

Minhas obsessões foram varridas
pelo furacão da tua presença.

Perto de ti,
todas as outras mulheres
parecem irrelevantes.

Redescubro poemas esquecidos,
ensaios abandonados,
sobre a beleza de
ser um apaixonado.

Nosso caso
é rodeado de descrições
das paisagens bucólicas que
excitam nosso olhar.

Desvendo teus métodos
de sedução
para aplicá-los em nossa
vida.

Minha memória governa nossa
relação,
atravessando as geografias do teu
corpo
escutando pequenos casos e
uma canção.

Acontecimentos poéticos,
crônicas apaixonadas,
que nascem da nossa
interação.

É nessa realidade
que se ilustra o desejo
e explica a nossa
afinidade.

Poema: Marcello Lopes
18/03/09

20 de março de 2009

Tua essência



Não há lugar onde eu não perceba tua essência
vejo arte em todo o teu corpo.

Dou meu testemunho
desse contato intenso com tua aparência,
descobrindo a familiaridade dos teus traços
ao percorrê-los com as minhas mãos.

Teu amor é real,
é muito mais.

Construído pelo espírito,
inserido no universo por mãos
divinas,
é escultura autêntica.

Teus olhos
molduras de uma existência efervescente
fotografia eterna.

Te encontro por meio de
intuições,
que brotam do dia-a-dia
mas que são representações
da memória.

Faço parte da tua obra
capaz de fecundar diversas
experiências que conduzem
á verdade.

Sinto remorsos quando não
descubro semelhanças entre teu
corpo e as obras de grandes mestres.

Tua boca tem um sabor de
modernidade,
criando descompassos
entre o que eu sinto
e a realidade.

Tua vida,
me previne dos desgastes
possíveis dos afetos.

Nela há um contaminar-se
de sorrisos,
sensações de intensidades
etéreas.

Poema: Marcello Lopes
Americana-Sp 18/03

18 de março de 2009

QUIOSQUES

Em vão o mar faz a viagem
Do fundo do horizonte para beijar teus pés prudentes:
Tu os retiras
Sempre a tempo.

Calas-te, eu não digo nada.
Talvez nem pensemos mais nisso.
Mas os vaga-lumes pouco a pouco,
Sacam suas lanternas de bolso
Expressamente para fazer brilhar
Em teus olhos calmos essa lágrima
Que fui um dia obrigado a beber.
E o mar se torna bem salgado.

Depois, certa medusa ouro e azul,
Que quer instruir-se entristecendo-se,
Corta as lojas abarrotadas do mar,
Clara e nítida como um elevador,

E destouca sua lâmpada à flor d’água,
Para te ver, com uma sombrinha,
Chorando, representar na areia
Os três casos de igualdade dos triângulos.

Poema: Léon-Paul Fargue

Tradução : Carlos Drummond de Andrade

Minha inspiração diária



De manhã não estou mais sozinho.


A recente mulher, estendida na proa, faz peso no fundo da canoa, que a custo desliza nas águas tranqüilas e geladas, opacas do sono noturno.


Superei o rio Pó turbulento e brilhante de sol, de ondas rápidas e de areeiros, e, vencendo uma curva após muitos vacilos, cheguei ao Sangonee o segui.


"Que delícia", ela disse em voz alta, sem mover o seu corpo supino, com olhos no céu.


Não há alma ao redor e as margens são altas, mais estreitas em cima. cerradas de choupos.


Como é tosco este barco nas águas tranqüilas.


Sobre a popa, abaixando e erguendo o meu remo,vejo o lenho que avança empachado: é a proa que afunda, é a mulher com seu corpo que pesa. vestida de branco.


A parceira me diz que é indolente e mantém-se parada.


Solitária ela mira, deitada, as cimalhas das árvores; está como na cama e me atulha a canoa.


Pôs agora uma mão sobre a água e a deixa espumar e me atulha até o rio.


Eu não posso mirá-la_sobra a proa onde estende seu corpo e ela vira a cabeçae me fixa, indiscreta, de baixo, movendo a coluna.


Quando peço que fique no centro e que saia da proa, me responde num riso matreiro: "Me quer bem pertinho?".


Noutras vezes, pingando de um salto entre os troncos e as pedras, prosseguia voltado pro sol e sentia-me tontoe atracando em um canto pulava de costas.


ofuscado pela água e os raios, o remo de lado, acalmando o suor e o cansaço no alento da ramada e no abraço da relva.


Ora a sombra se abrasa.


ao suor que se arrasta no sangue e nos membros exaustos,

e a arcada das árvores filtra a clarezade uma alcova.


Sentado na relva, não sei o que dizere me aperto os joelhos.


A parceira sumiu pelo bosque de choupos, sorrindo,

e eu devo segui-la.


Minha pele está exposta e dourada de sol.


A parceira, que é loura, apoiando suas mãossobre a minha e saltando na areia, deixou-me sentir, com a fragilidade dos dedos, o aromado seu corpo encoberto.


O perfume outras vezesera de água secada no lenho e suor sob o sol.


A parceira me chama inquieta.


Vestida de brancoela gira entre os troncos e eu devo segui-la.


Poema : Cesare Pavese

[25-30 de Junho de 1932]


16 de março de 2009

Os outros saberão parte 2



Os outros saberão
que canto um monólogo
de despedida.

O ritmo,
nítido no espelho
desmancha as interrogações.

A memória de tudo cessará,
o retrato dos dias maravilhosos
negará terem existido.

Mas os outros saberão,
como eu queria te inventar
rasgar teus medos
ornamentar com estrelas
teus cabelos.

Esses pensamentos me
atingem nas ocasiões
mais impróprias,
uma recordação de minha completa
e absoluta viuvez.

Os outros saberão
que eu custei a acreditar,
que o nosso amor estava
eternamente perdido.

Um mundo de vozes,
e eu as deixei sem respostas.

É preciso raspar a dor,
curar as crostas de
ressentimento
onde nenhuma ternura sopra.

Me entristece que ninguém
me socorra,
por pudor ou
invisibilidade.

Ficando somente eu e o espelho,
a perfeita imagem da infelicidade.

Os outros saberão
que nosso amor está derrubado,
como um pássaro que perdeu sua asa,
totalmente desconcertado.

Poema: Marcello Lopes

A voz que anuncia,
que se deixa envolver
irremediavelmente pelos meus versos
emudece de emoção.

Tecendo uma vasta e variada
teia de interrogações,
espantos e
impressões que se perdem
na música.

A voz que sempre
foi fiel ás cantigas, hoje
mergulha nos embalos
dos meus olhos.

Um retrato
absurdamente harmônico
de sons,
de luzes
reinam soberano nos espaços
da tua memória.

Nesse espetáculo momentâneo
onde tua voz
interessada e efêmera,
me desmorona e
me apaixona.

Outros saberão que a minha
vida pousa sobre
um silencioso mundo,
de mistérios,
caprichos
e que ficou no meu coração.

A voz
lábios de seda,
sem desejar mais palavras,
abriu meus olhos atônitos
e me banhou de beijos.

Que alma !!
que mãos delicadas,
perdi-me nas reticências
do teu amor.

A voz que encontra
a sedução,
que abre silêncios e
esperanças ao redor de si.

Como definir tua aproximação ?

12 de março de 2009

Em torno

Em torno de ti
jamais governou
tão firme paixão.

Em meus poros
que perdem aos poucos
as cores,
nunca foi tão tranquilo
o prazer.

Nós,
aptos
exatos
dois corpos que não só se completam
se fecundam.

Em torno de mim
as mãos experimentam
cometas,
teu corpo
celeste,
deitado na areia
desalinhando meus braços.

Nós
um só corpo
que se afirma
onde as palavras não se perdem
e a paixão se redime.

Em torno de ti
mais que a imagem
um beijo
um gosto pelo desejo.

Em torno de mim
outros corpos
mas não o seu.

A vida é moldura
do que eu mais amava,
teu corpo,
único e possuído
todo o tempo.

Em torno de ti
os segredos repentinos
o encanto inesperado,
meu corpo extasiado.

Poema: Marcello Lopes

11 de março de 2009


Um retrato e me surge
inúmeras indagações,
foi aventura amar loucamente ?

O ritmo,

a paixão dos encontros

tudo me leva a comemorar

a nossa vida.

Lembro-me da beleza

dos versos impressos nos

livros,

Percorríamos as páginas com uma

inocência eterna,

com o tempo fugindo pelas esquinas,

os olhos desenhando caminhos.

Teus dedos de seda

inclinando sobre meu rosto

suas mãos desmoronando

minhas defesas,

As palavras soando longe,

perdendo a força,

dando lugar ao vento

ás flores

teu nome.

Não quero mais dormir,

o sono destrói minhas lembranças

e o amanhecer sopra minhas

letras para o esquecimento.

Nuvens de estrelas

folhas frias,

esperam o outono reunidas...

Tenho agora você ao meu lado,

areia e amor profundo.

pensamentos que me fazem sonhar,

mais tempo para os meus olhos.

Abraçava-te e murmurava :

" Quero ser tua memória ".

A pálida face,

os lábios adormecidos

pela lembrança que escoa,

que foge de nós no horizonte...

Vem ver o silêncio que construiu

as espumas,

as ondas

os nomes efêmeros do nosso passado.

Vou contigo pelas dunas

pelos caminho do teu corpo

lendo sobre os poemas

adormecidos.

Leva-me pelas mãos

através das cortinas fechadas,

através dos corpos abraçados,

dos desejos desprendidos

suspenso entre teus seios

e objetos fluídos.

Ahh esses versos !!!

Murmuram o tênue e

o involuntário,

enquanto a noite iluminava-nos

pisando fragilmente no amanhecer...

Canta para mim,

casualmente seus lábios

arriscavam sobre as paixões,

as dúvidas e despedidas.

Canta minha musa,

enquanto eu construo

os poemas,

nossa história

de caminhos vertiginosos.

Leremos poemas

sem margens

nem direções

lúcidos e pensativos,

tu e eu.

Espero com saudades

os impossíveis destinos de

nossos encontros,

os desenhos que nossa imaginação

traçava, e que regressavam

de alguma maneira á tua infância

imaculada,

docemente pura.

Abraçava-me

como pedindo sinais, certezas,

teu corpo falando mil linguagens

e querendo tudo novamente.

Preparo-te

palavras e sonhos,

ouro e seda,

jardins e espelhos.

Leio sobre tuas mãos cintilantes,

teu peito repleto de amor e

palpitante,

sorvendo as falas,

as músicas.

Poema: Marcello Lopes

10 de março de 2009

Inspiração Diária



Elisabeth Bishop como todo poeta que se preze teve inúmeros problemas, seu pai morreu quando ela tinha 8 meses de idade, e a mãe ficou com problemas psicológicos internando-se em clínicas pelo resto da vida.


A poeta também era asmática, alérgica e deprimida. Na juventude tornou-se alcoólatra.


Começou a escrever aos 16 anos incentivada pela poeta Marianne Moore com quem desenvolveu uma grande amizade.


Em novembro de 1951, fugindo de uma depressão, Bishop chegou ao Brasil, vivendo por 15 anos entre Ouro Preto e Petrópolis.


Traduziu vários poetas e escritores brasileiros para o inglês, como Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles.


Sua An Anthology of 20th Brazilian Poetry publicada em 1972 é até hoje um dos mais importantes veículos de divulgação da poesia brasileira.


Publicou pouco menos de 100 poemas, reunidos em The Complete poems 1927-1979, por eles ganhou um Pulitzer, National Book Award e um Newstadt Internacional Prize.


Sua correspondência foi reunida no livro Uma arte: as cartas de Elisabeth Bishop ( Cia das Letras), escreveu Poemas ( Cia das Letras).


Texto: Marcello Lopes

9 de março de 2009

Estou apaixonado


Os olhos cheios de ausência
insinuavam uma série de
coreografias apaixonadas.

Estou apaixonado pela
deliciosa turvação,
o poder das palavras que
te impulsiona, e
me domina.

Meus simples gestos
transformam momentos em
mares sem margens.

As emoções pulsam
entre meus dedos,
teu peito,
um doloroso sincronismo
entre a realidade
e a metáfora.

Estou apaixonado
e aceito com devoção
o assédio espontâneo
de luminosos parágrafos
de inspiração.

Teu amor é avassalador
tocando e derretendo...

O amor impossível
se decantou,
tornou-se excitante

Em meio a essa felicidade
entreguei-me a teu corpo
com avidez,
na liberdade lírica
da razão.

Estou apaixonado,
e teu nome permanece assim
para a posteridade.

Tua figura diáfana,
magnética,
celebra com graça meus poemas,
com grande felicidade.

Teu prazer é alquimia
que funde diferentes temperamentos,
que embriaga minha alma de poeta.

Estou apaixonado pela tua mudez,
teu rosto perfeito,
meus olhos á tua procura
deslumbrados pela visão
da tua nudez.

E quando a distância
é tanta, só posso evocá-la
pela imaginação.

É em tua leve respiração,
nas noites longas que
nos entregamos,
neste coro de luzes
que dou vida á nossa
canção.

Quando colocas os braços ao redor
dos meus ombros,
possuo o mundo.

Te amo
e vivo clandestino
em tons de cinza,
celebrando esse sentimento
que jorra pela minha mão,

Corpos tolos se amando
atados e rendidos ao fervor
do desejo.

Poema: Marcello Lopes

08/03/2009

Esse poema é dedicado á minha fonte inesgotável de inspiração na vida, as mulheres.
Todos os dias são seus.


Um dia guardei todos os sentimentos

para te presentear.


Por sobre os risos e sorrisos

desponta ao longe

a sua vida.


Teu corpo é incêndio,

que queima a rua abaixo

que arde sem loucura.


Um dia guardei

os momentos que

tivemos.


Memória,

aventuras,

tempo onde nada se dissolve.


Nosso amor

sem contradições impuras,

reverbera ao som dos poemas

das palmas

conflagradas ao sorverem

goles de luz.


Um dia guardei a luz dos teus olhos,

para meu caminho iluminar,

por que tua passagem

se fez em longas distâncias,

navegando entre areias e

o mar.


Teu calor desloca mundos,

pedras e águas,

tudo que não é luz,

soluça.


Eu com minhas mãos em fogo,

queimo,

e nas estrelas avermelhadas revolvo.


Carrego nos ombros

ausente de tudo que é sombrio,

o barco com tuas vestes.


Absorto em te encontrar,

sigo sem dor,

sem cansaço.


Nunca desejei dizer uma palavra

tão louca,

como quero em teu ouvido.


Um dia guardei tua música,

e tudo fez sentido.


Desenrolei de dentro do destino,

a nossa canção,

pousando os ouvidos nas nuvens,

irrompeu a harmonia da nossa

paixão.


Desejo alto,

alto e infinito.


Poema: Marcello Lopes

04/02/2008

6 de março de 2009



Decidi te cobrir de rosas,
plantar um jardim na tua casa
lavar tua varanda.
Arrumar teus livros,
limpar as folhas nuas e frias.
Quero virar sua vida ao contrário,
desmanchar teu perfume ao vento
preparar teus passos,
desenrolar o tempo.
Por onde andas ?
fui ao teu trabalho,
gritei teu nome
cansei de ficar sozinho.
Quero mudar as formas
criando com um simples gesto
com o desejo renovado
o sinal de esperança.
Quero equilibrar a água que paira
na folha rasa,
quero trazer o vento
como um pequeno deserto
e te banhar em meus lábios
frescos.
Reprimo a solidão
no instante certo,
na medida exata,
mergulhando silêncios
tremendo de paixão.
Cantar na beira do rio,
com o mundo em teus olhos
cheios de luz,
e teus pés dançando
trazendo os lábios
os sonhos...
Decidi rasgar tudo que não
me lembra de você,
cartas, recados, textos, poemas.
Mexer com teus sentidos
sentir você na minha vida,
os olhos densos,
seu corpo tem outro nome.
Não quero te deixar sozinha,
desaparecer quando o dia amanhece
por altas nuvens me sentir
perdido.
Quando as rosas do jardim crescerem,
será nossa paisagem natural
cálida e serena.
Decidi que nossa vida
tem mais sabor quando nosso
corpo encontra o eco
nesse amor.
Poema : Marcello Lopes

Você.



Teu amor me motivou
a escrever essas linhas,
sem pensar duas vezes
sem esquecer o motivo
da minha existência.

Você !!!

Teus olhos me guiaram
por lugares ermos,
esquinas escuras
brilharam quando precisei
de luz.

Você !!

Em tuas mãos
encontrei o carinho,
proteção
tesão.

São as suas decisões que
me movimentam,
caminho pelas suas
direções.

Você !!

Da tua boca,
ouvi gemidos,
sussurros,
declarações.

É avassaladora a nossa paixão,
varre as evidências,
queima os escombros
que acompanha o
êxtase.

Você !!

Em meus ouvidos ainda
ecoa as tuas palavras
louvando nosso amor
- Eu te amo !

Em teus seios
encontrei descanso
depois de exaurir minhas
forças em teu sexo.

Não sou mais o adolescente pálido
dos primeiros versos,
nem o angustiado poeta solitário
sou apenas a tua poesia
o teu grito escrito nessas
páginas amareladas.

Você !!

Teu ventre lindo
livre,
me inundou de desejo
me aceitou
sem contestação
envolvida cegamente
nesta paixão.

Em minha persistência
compulsiva,
assumo meu profundo e
completo romance.

Em teu colo
suspiro pela última vez
nessa noite,
que foi a nossa
salvação.

Poema : Marcello Lopes


5 de março de 2009

Manhãs

Minhas manhãs são mais suaves,
da minha janela as forças da
natureza giram em perfeitos
círculos.

As rosas,
os frutos rompem depois
de uma maturação tranquila.

Minhas manhãs são mais suaves,
há apenas duas estações
o verão que me afeta,
e o outono distante de
esperanças feitas.

Cada uma delas
me fazem relembrar
aromas de especiarias,
da brisa que embala o sono,
as abelhas do dia.

Caminho sobre a grama
os sons ondulando na minha vida,
borboletas voando
á luz solar.

Minhas manhãs estão diferentes,
com sonhos que escoam o tempo
que rompem o ar de junho.

A natureza de cor púrpura
me atinge de súbito
ampliando a aurora
as cores,
o feitiço.

Os dias são tão incisivos,
que aquietam minhas
aflições.

A noite tornou-se limitada
precoce,
os ventos criam o caminho
para as folhas que se
desprenderam.

As manhãs mais suaves
tocam-me transformando meus dedos,
cantando para os meus olhos.

A neblina do outro lado
terminou em uma ensolarada
estrada,
envolveu planícies e ruas inteiras
lançando seu véu iluminado.

As preocupações ainda esquecidas,
formavam montes alcançando o
horizonte.

O sol silenciou tudo
negando a sua colheita.

As minhas manhãs são suaves e etéreas.

Vermelha é a manhã
púrpura se tornou tarde,
depois não há mais nada.

Poema : Marcello Lopes
Bertioga 05/03

3 de março de 2009

A Balada do Velho Marinheiro é o mais longo e emblemático poema do inglês Samuel Taylor Coleridge que, junto com seu conterrâneo William Wordsworth, é fundador do Romantismo.

O olhar apurado para a natureza externa, ao mesmo tempo centrado numa visão interna do artista como criador individual supremo nos oferece imagens poéticas em que a pintura verbal é mais psíquica que visual.

A imagem é muito mais fruto da imaginação. Experimentam-se, nesta fase inicial do Romantismo, inovações tanto de conteúdo quanto de estilo e percebe-se uma preocupação com o místico, o subconsciente e o sobrenatural.

Além de professor de inglês, o tradutor é estudioso da obra do psicanalista Carl Jung.

Pela fusão do conhecimento linguístico aliado a uma intimidadecom o conteúdo onírico das imagens de Coleridge, esta tradução é um ganho em relação às anteriormente publicadas no Brasil.

Disal Editora
R$ 22,50

Samuel Taylor Coleridge




Por que todo grande poeta deve sofrer ??

Para escrever e colocar suas palavras na história, diria eu.

É o caso do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (1722 - 1834) era uma pessoa complexa ( não somos todos ??) com surtos de depressão, e dependência de ópio que devastou sua vida, mas enriqueceu sua escrita, sua poesia.

Ele foi um faz-tudo em sua época, estudioso do idioma, da filosofia e da literatura alemã.


Foi influenciado por Thomas Gray e William Cowper publicando o que se chamou de poemas de conversação, "Poems in various subjects (1796), e escreveu com o grande amigo também poeta Wordsworth, Lyrical ballads (1798).


Nesse livro tem um dos poemas mais lindos que eu já li, chamado A Balada do Velho Marinheiro publicado aqui no Brasil pela Disal Editora, que o poeta disse que foi inspirado em um sonho.


Além da sua poesia, Coleridge apresentou a literatura alemã aos ingleses, com suas traduções e ensaios, principalmente no Biographia Literaria de 1817 onde analisa Kant, Fichte e Schelling.


A fiosofia alemã também está presente nos poemas com aspectos espirituais e religiosos, alternando levemente para o sobrenatural...


Texto: Marcello Lopes

1 de março de 2009

Você nunca vai esquecer.

Não importa onde você vá,
nunca vai se esquecer daquele momento
que deitados com as mãos imóveis,
suplicávamos pelo infinito.

Naquela noite o medo desapareceu do
lado oposto,
levado pela doce cadência
do nosso amor.

Você nunca vai esquecer
a noite fria que nos consumia
entre areias, nuvens e
espumas.

O gosto da sua boca,
a explicação do seu corpo é difícil
se torna um objeto complexo.

Você nunca vai esquecer
do frescor intenso do desejo
apaziguado,
da fascinação que era acordar
lado a lado.

Você é a minha inspiração,
o mito,
a palavra.

Você nunca vai esquecer
de que possuindo a palavra,
eu construo a nossa história.

Depertando com as memórias
irresistíveis dos momentos
que passamos juntos,
me ocupo em encontrar
o seu significado.

Entre encantos e claridades.

Você nunca vai esquecer
os céus estrelados,
nossas mãos em diversas
direções.

Enquanto as flores se modelavam,
nossos corações arriscavam perguntas
sobre o futuro.

Você nunca vai esquecer
nossos olhos espantados
os lábios queimando sem
pecado,
no mais profundo passado.

Poema : Marcello Lopes