31 de julho de 2010

Mosaico



Hoje você escolheu a solidão,
o abraço gélido do silêncio
que a faz esquecer o que viveu
e espera que esse abismo a liberte.

Hoje você quer o limite,
a sombra das máscaras
a indiferença e a frivolidade.

Você aos poucos ergueu barreiras intransponíveis
formados por enredos labirínticos para explicar
sofrimentos passados.

Hoje você vive no deserto das sensações,
dias insuportáveis e noites afogadas em líquidos
etílicos transformando-os em êxtases solitários.

Desprezou todas as tentativas benéficas do perdão,
para se entregar à insônia e um oceano de lágrimas
e assim caminhou cega pelo acaso,
buscando meras explicações do amor em conchas vazias.

Você procurou amor nos frios arcos das rochas
nas torres altas e brilhantes da ilusão monetária,
e morreu abraçada a perguntas sem respostas.

Hoje eu vejo o quanto somos tão parecidos
e ao mesmo tempo somos tão diferentes
como simples fragmentos de um mosaico
que não entendemos.

Poema: Marcello Lopes
Foto: Google

P.S: Como é complicado encontrar alguém que se parece tanto conosco e ao mesmo tempo se apresenta tão diferente do que queremos.

30 de julho de 2010

Apazigua



Nos mistérios dessa vida
entre as existências bruscas
apazigua teus ouvidos do desprezo
de quem não te ama.

São túneis que estarão sôbre nós
momentaneamente.

Entre os mapas da esperança
e os desvios da incredulidade,
apazigua os teus olhos das
inúmeras direções que
se desmontam à tua frente.

Nós, seres imperfeitos,
passaremos serenos pelos caminhos
desprovidos de murmúrios e repletos de enredos.

Na onda audaz que amedronta e sufoca,
apazigua tuas mãos para que no equívoco
do tempo, elas possam tecer
a água e modelar delicados moldes,
frágeis estruturas que só a verdade
pode animar.

No acaso as pessoas não ordenam pensamentos,
nem pensam na necessidade do medo e da própria cegueira,
então apazigua tua boca desses jogos tristes,
que só carregam sombras e cinzas,
sabendo que a voz quando translúcida
carece de enganos.

Nossos caminhos são desprovidos de nuvens carregadas de cinzas,
nem mesmo a água densa que cai do céu nos impede de vivermos.

Então que seja assim,
apaziguada por essa certeza
lembre-se que todo o horizonte
é pleno de belezas e cores.

Poema: Marcello Lopes
Foto: Google

25 de julho de 2010


Alastrou-se essa energia,
afrontando tudo e todos,
de um movimento exaltado
perfeitamente cristalizado no momento.

Escrevi textos em prosa,
clamando neles a tua eternidade.

Uma tempestade de paixão se abateu sobre mim,
de efeito avassalador,
abençoando todos meus olhares
anunciando minha trêmula verdade.

Ouvi ao longe uma canção sobre o amor,
deslizando furtivamente pelos corações,
contemplando a juventude dos corpos,
reprimindo o absurdo da vida..

E assim consegui expulsar esse fogo da minha alma,
que não me deixava respirar enquanto não pronunciava 
que nunca deixarei de te amar.

Insondável destino de quem ama.

Poema: Marcello Lopes
Foto: Google

18 de julho de 2010

Arestas



Não construí o amor, minimizei seus excessos poli as arestas, dominei sentimentalismos e cruezas.

No curso de minha história, houve certos momentos, mas não quero me resignar ou corrigir nada.

Não construí o amor, não creio no fracasso nem na timidez,  só nos versos inocentes com fins ruidosos.

Descobri que certas harmonias que me agradavam, de uma íntima beleza que naquele tempo me faziam buscar os entardeceres, as manhãs e a felicidade. 

Não construí o amor, consenti com alguns versos felizes, li versos clássicos, baixando a voz entre as fileiras de sílabas que me confundiam com seu frescor e delicadeza.

As estrelas, o banco na sombra e as luzes iluminando teu olhar nada disso tive culpa, mas são meus versos dispersos pelo vento, recolhidos em meio aos aromas de jasmim dos jardins, que são minhas obras.

O amor, eu não o construí, não ordenei as constelações nem mesmo criei a música que reflete no próprio céu.

A exaltação que esses momentos criaram, movimentando sentimentos, inspirando o inevitável,
é que em essência nos transformaram.

Minha vida arde como chama isolada, e as flores cobram um sentido, uma vontade.

Mas não construí o amor, foi procurando inutilmente nas ruas com o coração sombreado, como um homem enlutado que descobri as certezas de uma paixão.

As palavras se aquietam no peito, amenizando o sangue, almejando apenas a paz igualadora das almas apaixonadas.

Não construí o amor, mas não posso esquecer que foi o destino que nos transformou, depois da criação de nossas travessuras, das pinturas no corpo como pequenos talismãs onde o tempo foi roubado, ressuscitando gerações inteiras de poemas. 

Marcello Lopes

Em algum lugar



Em algum lugar alguém que meu olhos nunca viram,
entretece sonhos, escala templos,
e ofegante aguarda minha chegada.

Em algum lugar sobre a brancura da pele
alguém saturou a imaginação com meus beijos,
pronunciando de forma familiar meus versos.

O tempo é uma longa separação,
entre paixão e vida,
entre a infinita exaltação.

Em algum lugar
alguém vive de esmolas sentimentais
momentos de efêmera felicidade
e longos pesares,
como eu.

Ouvi uma música que sem palavras carregada pelo vento,
refletiu meu desejo de pisar no horizonte,
carregado de lembranças e esperanças.

Em algum lugar
alguém colore as pedras da rua
de azul, verde e cinza
de poente e de passado.

Meus poemas são ilimitados
quase abstratos,
quase felizes,
quase negados à esperança
que anda à espreita.

Em algum lugar,
alguém pode estar pensando a mesma coisa,
e assim podemos repartir o que os olhos não compartilham.

Alguém que navega nesse mar,
livre de fardos e de indecisões,
carregado de movimentos e admiração,
inconscientemente se apressando durante a noite
que apaga a tarde.

Eu que me fiz silêncio por tantas vezes,
hoje eu grito,
transportando em minhas mãos o espanto sincero,
a luz amena e o tempo.

Em algum lugar o milagre implacável da vida segue seu curso,
e alguém segue enumerando os acontecimentos do dia,
sem assegurar a trêmula imortalidade na cama.

Nos anos que me seguem
voltei a procurar,
fazendo minhas mãos resgatarem um verso perdido,
um carinho esquecido,
obrigando meus pés,
a repetirem antigos caminhos.

Será que o céu conterá entre suas nuvens
o nome desse anjo que infundirá em minha
vida sua ternura ?

Em algum lugar,
alguém esquece a inexistente alegria das derradeiras horas,
padecendo no tédio e na solidão.

A espera é comovente,
berrante,
desesperada.

É doloroso manter a sanidade
diantes dos versos que impõem seu espaço,
cessando os sonhos,
expondo a luz intensa da realidade.

Os pressentimentos que rondam minha vida
contradizem meus sonhos,
transformando-os em superstições.

Em algum lugar alguém afirma que o mundo
não tem propósito,
nem razão.

Quando encontrar esse alguém,
verei além das minhas certezas,
reconhecerei a substância,
em um instante definirei a magia
em desmedido esboço
e estremecido pelo encontro
a luz se acenderá e a complexa obscuridade resplandecerá.

Marcello Lopes

P.S: Para todos que buscam um grande amor e para aqueles que já o encontraram.

12 de julho de 2010


Nascemos do vento
e antes que o sol pudesse queimar nossos olhos,
vivemos em meio à bruma que nos protege e consola.

Sentimos o mar em nossos pés,
e brincamos com as estrelas em nossos cabelos,
nos olhamos como se tivéssemos vivido tão pouco.

Renovamos nossas certezas pelo simples fato de nos amarmos,
caminhamos levemente por essas estradas intensas,
que transformam o modo de olhar as coisas,
mas não o nosso, porque nascemos do vento.

Andamos lado a lado com a felicidade em nossa pele,
nos amamos em meio à tormenta que em segundos
devasta e cega.

Somos filhos do vento
nascemos antes do sol
e antes do dia clarear.

Somos a essência
amamos por inteiro

Por que somos filhos do vento.

Poema:Marcello Lopes
Foto: Google

7 de julho de 2010

Eugène Boudin



O vento desloca nossas vidas,
fazendo-nos esquecer de nossos destinos,
povoando nossos pensamentos
com o tempo roubado de nossas mãos.

Esperando nas fronteiras do desejo,
por uma vida que não se detém
e com esperança repete-se na vigília.

O vento atrasa as palavras,
dominando seu espaço
e canalizando sua energia
onde se derrama sombriamente pelo céu.

Enquanto isso ela espera na eternidade,
na encruzilhada das palavras,
a procissão dos versos.

Poema: Marcello Lopes
Foto: Eugène Boudin

P.S: Esse é o 4° poema inspirado pelas telas dos artistas que eu aprecio.

6 de julho de 2010

Chagall



Nosso amor é como uma música leve e conhecida,
que não entorpece os sentidos
e nas cores suaves do céu
comove-nos.

Nosso amor é prometido desde a iniciação dos mundos,
quando a luz ignorou as sombras
e tornou real meus versos.

Nosso amor resgatado e ponderado
de modestas velas,
navega pelos declives
com a finura da areia.

Poema: Marcello Lopes
Foto: Promenade by Chagall

P.S: Esse é o 3° poema inspirado pelas telas dos artistas que eu aprecio.

4 de julho de 2010

Cézanne

 


Compenetrados pela certeza da vitória,
entre sombras e mármores eles jogam,
lentas fileiras de cartas prometem o fim do jogo.

Vibrante em cada jogada,
somente o silêncio respira
enquanto que o tempo e o espaço
cessam todos os movimentos.

Poema: Marcello Lopes
Foto: Players by Cézanne

P.S: 2° Poema de uma série inspirados nas telas dos artistas que eu aprecio.

1 de julho de 2010

Agradecimento



Agradeço as cores que eu escolhi
e hoje fazem parte do caminho que refiz,
de maneira sensata e gloriosa.

As palavras que escrevi
colocadas lado a lado nas páginas
da minha vida,
ouviam a verdade em cada história
me desviando dos problemas e frustrações.

Agradeço as cores que pintaram meu céu
me preparando para encontrá-la
e transformar nosso amor
em um lindo poema.

Nessa aura de encanto
que se cria na espera da sua chegada,
minuto a minuto sorvo lentamente
a expectativa do encontro com
a suavidade dos seus lábios.

Agradeço as cores fascinantes que impregnam
o ar que eu respiro,
levando as memórias sob a chuva,
trazendo-me os cheiros da minha infância.

Nos versos,
recriei nossa felicidade que preenche a alma,
alimentando a essência invisível do nosso amor.

Somos um só,
uma invenção que enxerga e sente
o que mais ninguém vê,
somos o aroma dos frutos vermelhos derramados
pelo corpo.

Agradeço as cores rubras que escorrem dos versos,
sem desistir de encontrar a boca,
as mãos,
a luz.

Desenho minha vida com as cores
que seu amor me presenteia,
rabisco nas paredes da nossa casa
declarações de fidelidade.

Nesse mundo vasto que é nosso amor
avisto irradiações douradas e laranjas
das tuas mãos,
colho todos os dias margaridas
para seus cabelos enfeitar,
adubando aos poucos nossa felicidade.

Agradeço as cores que habitam
todas as idades do nosso amor,
todos os momentos delicados,
os instantes compartilhados de dor cinza,
e de uma alegria azul incomparável.

O vento seca nossas lágrimas
que pendem dos olhos saudosos,
esfriando o medo que nos tolhe
e levando a música que nos emociona.

As cores que vejo me fazem imaginar
as vidas que tive sem o seu amor,
as línguas que aprendi e que inventei
para decifrar o que você significava.

Agradeço aos livros,
que me acalentaram quando o desespero e a solidão
eram maiores que a vontade de ser feliz.

Sou muito rico,
de vozes,
de cores,
de versos,
transbordo de amor
onde meu sopro tem o seu hálito.

Poema:Marcello Lopes
Foto: MDE-ART.com

P.S: Esse poema veio hoje de tarde por "culpa" da Renata Bezerra que tem textos que inspiram e emocionam, especialmente Lembranças Coloridas.