30 de setembro de 2011

#48


A poesia nunca deixará de viver, na palavra rubra, no amor que foge, no distanciamento que turva.
 
O apaixonado sentimento emancipa o espírito, vontade louca que se encarrega de alucinar a alma, as mãos, o pensamento.
 
A musa que confessa seus desejos, sussurra seus pecados nas mãos que passeiam pela pele, que em desespero absorve o ser amado.

Marcello Lopes

26 de setembro de 2011

Poema composto por 4 mãos, 2 corações e 1 desejo



Suas mãos criaram linhas sinuosas em meu corpo, se metamorfoseando em tesouros nos meu braço, rosto e memória. A herança desse erotismo requintado desmorona em mim através das suas alegorias desenhadas e concebidas com a sua audácia de viver a vida com vigor extraordinário.

Da sua coragem envolta em sentimentos e juízos, vejo um mundo impregnado de cores e paixões, onde os corpos vibram com uma energia que ultrapassa os contornos e invadem o espaço.

Da sua garganta vem o grito que nega qualquer negatividade, atravessando o escuro das dúvidas desbravando essas afinidades que leio em sua pele.

Eu a revelo com os meus versos, e o afeto tem uma razão louca, como aqueles que olham para o oeste e sonham com mar e sol abertos.

Seu carinho ganha força de todos os símbolos transfigurados em mistério ressoando em meu peito, construído aos poucos pela natureza dessa paixão.

Ao seu lado, planto caminhos, expresso em imagens o que as palavras desconhecem, aprofundo os versos, enriqueço minha vida com a sua história, e invento cores sutis e nasço das incisões que suas atitudes fazem em minha pele.

Não domino o destino, nem mesmo o futuro, mas sei que em nossos rituais existe afeto, companheirismo, atenção aos detalhes e doce sensibilidade.

Essa experiência que vivemos formula algumas lições que por nenhum meio podem ser expressas além do sorriso que ressoa em nossos rostos.

O medo é áspero e muda a forma como mostramos nossa materialidade, mas o respeito que temos converte nossas esperanças em uma acolhedora realidade.

No passado, vivi uma época de ansiedade e miséria, hoje revelo em meu olhar uma harmonia repleta de intensidade e descubro em mim mesmo o fascínio pela vida.

Diante desse motivo, me mobilizo para que a sua individualidade seja sempre resguardada, renovando todos os dias minhas intenções para acentuar a ternura que existe em sua vida.

Confinando minha melhor tendência e a sua personalidade criamos uma grande sinfonia de cores, afetos e sensualidade.

Marcello Lopes

23 de setembro de 2011

#47


Te encontrei em uma manhã descuidada e desarmada. O desejo de uma realidade dentro dos padrões que o corpo exige e que o orgasmo resvala me fez acreditar em amanhãs brancos e tardes azuladas.

Umedeci versos para que pudessem se fundir em sua pele branca, perdendo-se nos flancos sinuosos que curam todo esse caos que me invade. 

Te encontrei sem compromisso vivendo a vida sem interrogações, me cobrindo com seus sorrisos e abraços de reticências, me parecendo tão silenciosa que sua proximidade encrespou meus desejos. 

Seus pés flutuaram em direção ao meus lábios imersos em esperanças e sem preconceitos. Seu corpo se banha nos meus versos, e os meus sonhos se realizam a cada sorriso seu, em cada curva do seu corpo. 

Te encontrei por acaso (e quem acredita nele?)

Essa alegria que nunca se esvai coroa com contornos coloridos cada momento que compartilhamos, cada pensamento que emitimos em relação aos primeiros esboços dessa nossa estória. 

Ouso preencher minha vida com teus sorrisos e essa paixão que cresce a cada dia, primeiras linhas de um romance incomensurável. 

A cada descoberta, um sorriso. A cada frase respondida, uma certeza.

Cerco seu dia a dia de anseios, de desejos de auroras boreais e de um florescer original dentro do peito. 

Te encontrei através de um sorriso, de uma comédia de erros e intenções alheias, e assim devagar foi entrando na minha vida, uma paz lenta e relaxada que se afoga sem morrer dentro do coração. 

Amamos a descoberta diária de defeitos, vícios e virtudes que cada um carrega na pele, abandonando os preconceitos violentos que extinguem os romances, erguemos ao nosso redor um muro de boas intenções que estalam a cada nova descoberta. 

Essa história que espalha esperança no calor do dia, que não se dissolve na noite escura, é o que nos faz levantar quando caímos, ou quando sentimos os erros da vida pesando em nossos ombros. 

Esse encontro, proporciona a cada um de nós, a chance de nos conhecer, de desvendar nossas próprias mentiras que obscurecem a verdade tímida. Nenhuma outra droga é mais poderosa do que a sensação de desnudar a pessoa querida, dois corpos se reconhecendo através de idéias, de ideais, de células que só vivem de pele.

Te encontrei como uma mulher que batalha contra o próprio corpo, mas que olha nos olhos e tatua no seu corpo a esperança de todo um mundo.

Para sempre é um ato de esperança, uma expectativa necessária para quem quer se apaixonar, mas sem se perder no excesso de promessas.

Os bons ventos fazem nascer estrelas, controlam o caos dos nossos sonhos, e não expiram após ciclos incansáveis de começos, sorrisos, meios, e tristes fins. Não tenho todas as respostas, nem mesmo para os meus próprios questionamentos, mas recorro ao sorriso quando tudo me é proibido, quando todas as portas se fecham, quando escorre pelas mãos os versos que inundam a alma, e que não me permitem desistir de seguir em frente. 

Meus olhos viram tanto e em tão pouco tempo. 

Meu caminho desaguou em seu rio, transbordando sincronias e reverberando o que as atitudes confirmam. 

Te encontrei em pura dualidade, amor e sal, mel e dor, fogo e vendaval. 

Caminhei por uma estrada que ao mesmo tempo seduz e assusta, amando a chuva que se aninha nas dobras da alma, sonhando em silêncio para não se espantar com a sorte que é tão distante.

Precisamos viver e entender nossos complicados mecanismos de defesa, todo o sentimento coordena uma série de movimentos, qual é o sentimento que coordena seus braços?

Quero viver o milagre dos seus dias.

Um de cada vez.

Marcello Lopes

20 de setembro de 2011

#46


Um homem tem as marcas da insanidade e as esconde atrás de uma máscara de poder e violência. Suas atitudes são estudadas, desafiadoras, a mão sempre preparada para a agressão, as unhas como garras, os olhos sempre gritando. Essa máscara não traduz todo o seu pavor do mundo, nem o medo da descoberta de uma felicidade pacífica mas sem autoridade déspota.

Submete esposa e filhos à máscara, decidido erroneamente a (de)formar o caráter dos seus pela intensidade do ódio, desprezo e intolerância.A fugacidade dos momentos de compreensão passam velozes e sangram a própria existência desse homem, pois o vício que essa máscara carrega é repleto de ecos, de opiniões arcaicas.

Suas verdades não oferecem flores, é um homem sem truques, sem emoções beneméritas.

Caminhando contra o tempo, esse pobre homem conquista tudo, cargos cada vez mais altos, palácios e dinheiro, poder, sexo, ganhando a confiança dos líderes e perdendo a si mesmo nos atalhos de uma vida povoada de pessoas extravagantes e desfiguradas.

Rompendo com a sensatez sempre que lhe é conveniente funde sua alma com o elmo, transforma o dedo em lança carregando a alma descompassada.

É o mais eficiente e tenaz líder, aquele que converte idéias em realidades, em casa é (des)construtor eficiente, personalidade de emoções desmedidas, egoísticas e de memória perdida.

Visões não o impressionam, refuta a realidade alheia como sendo absurda, modifica pessoas e transforma-as em monstros que desaparecem tão rápido quanto surgiram.


É um homem de impacto sem substância, que se realiza na desordem e nas áreas negras banalizadas por homens fracos e viciados. Desviado da consciência familiar, afastado pelos desejos dissimula sentimentos que não pode compreender, inertes em sua alma anestesiada.

Afasta-se dos abraços e do aconchego do afeto, dorme em várias camas, beija outras bocas, almas estranhas igualmente perdidas. Até um dia em que esse homem escuro perdeu tudo que tinha, tudo que pensava ser perene, intocável.

Os dias se transformaram em torturas infinitas, o inebriante poder tinha se dissolvido em uma massa disforme de indiferenças e ausências.

Sua casa, antes frequentada pelos falsos amigos e bajuladores, como verdadeiro palácio sem alma onde abrigava sua aparências ruiu, afastado da cúpula do poder que lhe virou as costas, encontrou-se sozinho, sem a família que rompera corajosamente com o círculo de vícios e violência, sua morada se transformou em cemitério e ele próprio em alma penada.

Uma situação que em nenhum momento esse homem imaginou passar, um trágico silêncio se instalou em sua alma, um ruído profundo e agudo foi sendo ouvido em seu corpo, agora que o desespero perambulava livremente.

Suas mãos antes tão firmes, denunciam um ser humano por detrás da máscara, ferido e sangrando, que chora e sofre por seus atos insaciáveis.

As lágrimas, desconhecidas de outras épocas nascem e desabam no mármore esplendoroso da casa, queimando a alma como lava, ferindo o orgulho, modificando até sua aparência.

Essa súbita ruptura lançou-o em um abismo amargo, transformando a rotina em caos, apresentando-o à sentimentos nunca antes sentidos, um medo fosforescente iluminava todo o seu corpo.

Agora esse homem conhece a profundidade de seus atos, a totalidade de sua tristeza e a plenitude da sua dor.


Marcello Lopes

17 de setembro de 2011

#45



Há amores que esperam olhos ousados os desnudem, se tornando assim efêmeros e completos.

Há mãos que são oferendas, delicadas e oscilantes.

E nas páginas de um livro, amores e mãos suscitam a fragilidade do corpo, a eterna abolição da vida solitária e cobrem toda a alma de pétalas e porcelana.

Marcello Lopes

12 de setembro de 2011

E a janela ainda diz tudo...


O inverno chegou e levou nossos sonhos na infinita lentidão pelos caminhos menos percorridos. Eu te vi na cozinha escolhendo temperos para nosso amor aromatizar, carregando em seus ombros a minha camisa repleta de rastros do nosso amor.

Fiquei parado na soleira da porta, hipnotizado pela sua beleza, pelas suas mãos que contam histórias e pelo seu quadril que faz dançar meu coração. Durante o jantar conversamos sobre adágios e cores, sobre a harmonia do vinho com a comida.

Acendi a lareira para conter meu próprio fogo, embriagando a sala de um aroma simples do cedro, no sofá rescendia jasmim e flores da laranja que escapam facilmente dos seus poros e conversamos sobre livros e pele. Por que você gosta das minhas histórias e eu da sua pele.

Em nosso refúgio o meu prazer é vê-la rindo com aquela serenidade própria da juventude, jamais esgotada pelo impossível dizendo entre sorrisos que o perigo da vida era a felicidade precipitada.

Não convém viver o futuro, escorrer pelos cantos e deixar a viagem ao acaso. Olhando para suas coxas pálidas e úmidas faço um balanço da nossa vida, sua felicidade frágil, minhas paixões, a covardia do mundo.

O que possuímos não tem nome, essa deliciosa espera sussurra em nossos corpos promessas perplexas de cores azuis, sentimos juntos os versos que nos oferecem pálidos reflexos.

Espalhados na cama estão nossos livros rabiscados nas margens, estampando sensações, pensamentos e dores que o corpo ou o rosto soluçam. Jogadas pelo chão estão nossas roupas, testemunhas de um paraíso fechado em todos os nossos  encontros, parte da nossa obsessão é tecer um destino para nossas peles.

Deito nessa cama vasculhando a mente preguiçosa e sonolenta atrás de uma frase de efeito, tentando desvendar no seu rosto atento os momentos privilegiados que nem se consideravam como felicidade definitiva.

Você caminha pela casa adivinhando cada espaço, cada objeto como se estivesse desconfiando da memória. Existe em cada um de nós um corpo no qual queremos nos banhar todos os dias, preencher de saliva, orgasmo e nostalgia, pra mim esse corpo é o seu.

A noite cai e com ela a chuva maltrata o telhado, e você me sorri a cada nota musical, procurando meus olhos a cada melodia, colocando em minhas mãos delicadamente um turbilhão de beijos apaixonados.

Espantado pela tempestade me aninhei em seus cabelos, deliciosos e despreocupados, livres como seu sorriso, como acompanhando o clima, seu corpo aboliu toda a velocidade, pousando seu quadril no meu deixando marcas no meu corpo com seus pés, dançando ao som de miragens sob os lençóis.

Dormimos embalados pelas imagens que nossos corpos projetavam nas paredes.

Sonhamos juntos sobre os livros e pequenas anotações que ocupam a cama, nossa vida e minhas mãos.

Pela manhã fomos recebidos pelo orvalho que nossos pés descalços escondiam, o dia expelia nuvens brancas como algodão que sulcavam o céu como lanchas em um mar bravio.

Caminhamos lado a lado pela areia deliciosa, conversando sobre café da manhã, lembro que você estava adorável com o cabelo preso, a cabeça curvada como se quisesse fotografar cada onda que quebrava em nossos pés.

Onda feliz, esgotada e repleta de impacientes destinos. Nas imagens ásperas da orla pude me banhar, reinventando histórias, construindo aparências e te achei mais linda do que antes, culpa daquela alegria que faz querer viver mais do que qualquer outra coisa.

Mãos dadas, esquecimento e abandono. Mais tarde te encontrei na velha janela observando aleatoriamente a praia cheia de ternura que me dissuadiam energicamente a desistir dessa nossa vida.

Emudecido por essa imagem, extenuado pelo mar, resolvi voltar e me abrigar na sua pele frágil e conquistada com o simples desejo de ser seu, de amar sem pensar no segundo que vai se seguir.

Marcello Lopes

7 de setembro de 2011

#44


Eu estava ao seu lado quando o dia nasceu, o esplendor dos céus se apresentando para nós, deitados no banco da praça rindo da retrospectiva dos nossos erros mais ridículos, seus devaneios e meus sonhos perdidos.

Caminhamos a noite inteira relembrando beijos, imprevistos e  respostas do passado, gestos e olhares que trouxeram segredos à luz da lua.

Sempre falei muito, mas ao seu lado improvisei um silêncio e me perdi nas veredas das suas histórias, um despojamento radical me consumiu e concentrei meus ouvidos em todas as suas impressões.

Encontrei perdida nos seus olhos uma calma, um distanciamento dos problemas cotidianos que eu nunca tive, me deparei com as suas emoções em estado bruto e lembrei da sua infância tão solitária.

Algumas pessoas não conhecem os benefícios de uma boa caminhada, juntos catalogamos impressões, criamos metáforas para os antigos amores, e despejamos juventude nas palavras, combatendo a velhice com lucidez.

Você se lembrou de quando viajamos aos quatro cantos do mundo, descobrindo vida, ganhando alguma atitude e coragem pra crescer. E quem quer crescer na vida você me perguntou sorrindo.

Era tão pouco o que eu carregava nas costas, problemas, medo, e as raras expectativas me fazem sorrir ao entender que tudo é ínfimo quando se é jovem, tudo que eu vivi com você foi para descobrir que nossa felicidade era dimensionada em risos, beijos e orgasmos.

Esse momento de união que tivemos nos impulsionou e nos manteve unidos mesmo quando estávamos em mundos diferentes, sempre nos inspirou a escrever desde pueris indagações à patéticos versos.

Há muito tempo não nos víamos, tanto que a vida nos cansou de chamar, e hoje deitados olhando estrelas percebemos que nossa natureza é fugitiva, que essa fuga ressoa dentro de nós quando nossas esperanças são desfeitas.

Nos acostumamos a essa natureza, criando amizades e amores em situações distintas, colecionando fisionomias e situações tão inconstantes como as nossas paixões.

Nossas fantasias eram muito mais atraentes quando éramos mais jovens, e a realidade que compartilhávamos era perfeita.

Observando você ir embora com o sol cada vez mais brilhante, pedi uma vida como aquela que sempre sonhamos, com a leveza de quem tem paz, a ausência de expectativas e velhas paixões no peito.

O seu amor me traz uma doce claridade, então deixo você partir conforme o destino de uma vida que precisa de outras fantasias.

Texto: Marcello Lopes


P.S: Você é minha musa eterna.