29 de fevereiro de 2012

#75



Minha mulher traz os talentos da pele, a beleza da alma, e os pés ansiosos pela trilha que se descortina diante de seus olhos.

Ao pousar seu olhar sobre as ruas desconhecidas, repletas de odores e sons novos, irá se perder em terras estrangeiras.

Minha mulher sonha em ouvir os trovadores na França, arde por caminhar entre as ruínas romanas.

Sua vida começará quando sua consciência descer até as ruas e se deixar envolver pelas luzes que dividem os bairros com fantasias em cada esquina.

Seus pés serão arrastados para as festividades noturnas de cada cidade, onde o tempo confessa sua fragilidade em cada lâmpada, e a hora exata é sempre o início de cada conversa.

Homens de feições duras, chás e livros, abismos e montanhas essa cacofonia de imagens transforma cada fotografia e arremessa sensações breves mas indeléveis no espírito.

Já posso ver seu sorriso quando escancarar as janelas recortadas de cristais, o fino tecido em estampas diversas explodindo em cores no mercado municipal.

E a cada música seus olhos observarão uma nova atitude, um sonho que se tornou realizado justamente quando o medo foi renegado, quando suas mãos traçaram no mapa a rota correta ignorando os receios e trilhas acidentadas.

Eu sou um nômade que decidiu radicar-se, permanecer cercado de livros, sons e versos, mas seu espírito, querida, se move através das brumas e inflama seu desejo de caminhar livremente.

E estarei à sua espera quando voltar de suas aventuras

Marcello Lopes

27 de fevereiro de 2012

#74

Porque milhares de pensamentos sobre você povoam na promessa que lhe fiz? 

Talvez o único momento sensato é quando perante o silêncio e o tempo, me encontro com você. 

Me aventuro a perder o foco, mas suas mãos desdobram os versos que traço, levantando bandeiras e transformando medos em pó. 

Porque milhares de sentimentos assombram meus sonhos ? 

Confundo as datas, o sono e a paixão adormecida. 

Apago a morte no espaço onde somente a nossa imagem existe.

Os instrumentos mágicos da sua alma ondulam minha inspiração. 

E rezo nas sombras benéficas da sua ausência, que o milagre cotidiano deixe de ser incompreensível
e se torne deliciosa repetição.

Marcello Lopes

21 de fevereiro de 2012

Marujo e a sereia



Eu era um homem casado com a solidão, imóvel e encoberto pelas imagens que me machucavam, e então a conheci.

Eu contemplava o mar agitado, orando por bons ventos, pedindo proteção contra as tempestades. E ela estava lá, cantando em uma pedra alta, provocando o oceano, estufando o peito e sorrindo de sua fúria inútil.

Eu atravessei seu caminho, camuflando meu interesse em pueril brincadeira, procurava nos destroços da minha vida, tesouros deixados ao céus. Segurei sua mão e na outra um punhado de areia que diante do nosso beijo escoava segredos, amontoando em nossos pés os sonhos de criança.

Sereia ornamentada de conchas nos cabelos, entre os seios o vento lhe obedecia e assim feliz, deixava seus lábios se perderem com volúpia nos meus. Nos encontramos em um comboio de nuvens, brancas de paz, oscilando amor e medo, desejando usar o coração como bússola, só para contornar os recifes e desbravar a pele.

Eu, marujo, conheço o mar de estórias daqueles que retornaram sem serem tragados pelas grandes marés, dos amores intempestivos e dos fracassos em busca de realizações.

Ela, sereia, iludida pela realidade que desmoronava seus castelos de areia. Descrente de amor, encontrou o marujo que continuava em sua busca pela realização de um amor.

Ela estava decidida a reinventar sua vida, escondendo o essencial, criando imagens e situações que dissuadiam qualquer marujo, construindo muros ao redor dos rostos, fachadas que eram máscaras, máscaras que expulsavam a esperança.

Foi um dia de céu azul, mar tranquilo, com vontade de viver atravessei a cidade, respirando a primavera que existia em suas palavras, extenuado de tanta expectativa, emudecido pelo medo de um novo cenário.

Nos abrigamos do calor, abalados pela sintonia que nos aproximava cada vez mais, perplexos com o calor que irradiava de nossa pele e no final da tarde, o milagre aconteceu, depois de pequenos jogos de sedução, a sensualidade de sereia me arrebatou e eu, julguei ler em seus lábios meu nome.

Minha sereia cantou, deliciosamente insegura mas adorável, e o tempo parou no momento em que nos beijamos, selando assim um encontro que se encharcava de alegria e planos.

Em seus gestos encontrei a mulher madura, que sabia ler meus versos e com as mãos impacientes inspirava meus desejos mais ardentes.

Os dias se passaram, ela me ajudou a levantar, despindo-me de preconceitos, conservando nos olhos o brilho e a surpresa. Desenhei em versos o espaço à sua volta, muitos balões multicoloridos imprevisíveis eram escolhidos pelas cores, ousando assim te amar em camas fosforescentes.

Continua.....

Marcello Lopes

20 de fevereiro de 2012

Tempo



O tempo arrasa o peito, devassa a alma. 

O tempo constrói e desconstrói dores, lugares e amores.

Que perda já não foi maior com o tempo, ou menor e insuficiente para esquecer sem ele ? 

As preces e lamúrias que foram deixadas para trás ainda podem ser ouvidas pelo coração que sangra, o amor que antes se afogava em desejo e inspirações, hoje luta contra o árido deserto do esquecimento, da negação e da amarga frustração.

O tempo escorre pelas mãos, não nos pertence. E nesse processo desvincula afetos, faz com quem nós sejam desatados, a estranheza ocupe o espaço antes tão amado da intimidade. 

Sem ter tempo é um caminho cego pelo presente, sofrendo pelo passado com medo do futuro.

O tempo passa fundo entre idas e vindas, carrega o sabor das descobertas sem pressa, assim o tempo passa e com ele nossas alegrias, detalhes, lágrimas e sorrisos.

O tempo cruel, passa e devassa.

Marcello Lopes

15 de fevereiro de 2012

#72



Teu nome é uma tempestade onde meu coração navega,
tuas mãos carregam a sombra da canção que ao longe se ouve.

Nada embriaga mais que teus beijos,
na ponta dos teus pés o estrondo do orgasmo é sentido.

Marcello Lopes
Foto: Randi Ingerman

7 de fevereiro de 2012

#71

Quando eu aprender a caminhar ao seu lado, gozarei do privilégio de ser ao meu lado.

Quando eu plantar as flores, aprenderei ser um provedor e permanecerei assim até que o tempo se desfaça em ventania.

Ontem foi aprendizado, amanhã é silêncio e hoje é oportunidade.

Colho doces momentos ao seu lado, sabendo que são sementes de um futuro feliz.

Os corpos fundidos em um só sentimento, florescem, querem, fluem sutilmente em direção dos nossos sonhos.

Eu renasço em sua boca, meus versos guardam a luminosidade da sua pele.

Marcello Lopes

1 de fevereiro de 2012

Dama do Vento




Não existe mais a inocência, minha fachada é uma máscara atormentada, escancarada para um céu cinza, salivando saudades, perfurando a pele através das órbitas cansadas.

Meus ombros esgotados jazem minados e emudecidos, profundamente aflitos.

Extenuado pelo vazio, pelos abalos causados por esse coração sísmico e gigantesco, a ausência ceifa tudo.

Não há lugar para a esperança aqui, o temporal carregou o milagre, explodiu o contexto, e fui reivindicando um espaço na sombra, longe dos olhares, de outras pessoas, das outras mulheres.

Foi um choque e tanto.

Eu estava me consolando com miragens suntuosas de um futuro incerto, ilhas de vento, construindo histórias para um rosto que eu amo, reiventando a vida, deixando as aparências de lado, transformando meu dia em uma eterna espera.

Dessa vez diante do muro que você construiu ao seu redor vago tentando amenizar essa transição, com as mãos perdidas definhando vozes para escapar dessa tristeza.

Para mim não é o fim, queria prender o tempo em uma corrente, domestica-lo, dominá-lo, mas hoje sou eu que estou dominado, desaprendi a reconhecer sinais, ler o instante, ocultei parte do ato e tentei enfiá-lo em páginas amareladas na minha estante.

Eu estou aqui, tenho o mesmo sorriso, a mesma saudade, o mesmo tesão, mas tenho tempo para digerir seus silêncios, para escolher minhas imagens e criar uma cortina de fumaça.

Eu te amo meu amor, te entreguei um amor tosco, embrulhado em versos, reciclado pela vida, uma febre incomparável.

Loira, bem bonita, conquistou meus lábios imaturos, torturou minha pele impaciente. Julgava ler os possíveis desejos esboçados em seus movimentos, até mesmo em suas negações, mas não vi nada e cai decepcionado e sem resistência.

Você precisa de espaço para reencontrar aquilo que eu tanto amei nos primeiros momentos, e eu preciso extrair essa dor que se instalou no meu peito, nos olhos, deixando as imagens que eu tenho de você em preto e branco.

Vou ficar aqui, imóvel, triste, bem-comportado, paciente como uma moldura em torno do seu amor.

Minha dama do vento, ninguém abandona uma pessoa que lhe traz felicidade por mais breve que essa se anuncie, não se torne impermeável.

Um dia você irá me perdoar por essa paixão ?

Quando você entrou na minha vida eu acolhi o amor.

Eu quero você, de braços abertos, acolhedores, com o desejo de ser minha, de pensar nas alegrias que podemos ter ainda, esse nosso amor me ensinou muita coisa.

Todos os meus versos contém esse amor por você, continuo a beijá-la todos os dias, tive essa sorte incrível de conhecer seu amor.

Carrego você comigo.

Marcello Lopes