29 de maio de 2012

Oração de um poeta



Érato 

Deusa da poesia de amor, banhada em luz e sentimento ouça meu pedido ! 

Que haja contentamento perene nas minhas mãos, e de paz em seus olhos.

Que exista no meu coração uma fonte inesgotável de alegria e afeto, que a cada dia os seus sentidos clareiem minha mente, refinem as sensações e cultivem a concórdia.

Que no banquete maravilhoso desse amor sirvamos apenas sentimentos doces, palavras gentis e generosos atos para assim saborearmos cada vez mais a presença iluminada dessa arte.

Desejo sempre a sombra das árvores onde eu possa descansar em uma eterna tarde azul, que eu possa bordar seu nome em meu corpo e nele harmonizar meus versos.

Que de seus pés nasça o balé grandioso do sexo, para nascer na minha boca o sumo de inesgotável prazer.

Meu coração é pleno, é extensão das suas inspirações, tão raras e claras.

Que possamos partilhar dores e aprendizados, que sua vida enriqueça a minha, e que seu amor habite o meu peito.

Marcello Lopes

28 de maio de 2012

# 99



Eu tinha tantas palavras, mas hoje elas não alcançam a linha tênue entre a sua falta e o meu vazio para expressar todo o sentimento e angústia.

Eu tentei gritar desesperadamente, mas no vácuo o grito se tornou silêncio, e o silêncio machuca mais do que o caos. Não queria demonstrar que ainda te amo, eu que era tão destemido, que reagia apaixonadamente uma perda com outro romance, que me embrenhava nas coxas brancas de outras musas e cada dia a dor se afastava, mas hoje não, eu reajo a tudo isso, a essa busca incessante pelo orgasmo efêmero, pelo arrepio na pele e a queimadura na alma.

Eu tentei correr atrás, fiquei vendo e ouvindo as mesmas palavras todos os dias, os mesmos adjetivos, as mesmas concordâncias e toda aquela divergência.

Hoje eu não repito o mesmo erro, mas também não me relaciono mais com pessoas iguais a você, aliás, quem é igual a você?

Eu tentei lutar mas a paixão pelo teu cheiro, a suavidade da tua pele me impediram de quebrar tudo, de encerrar o diálogo e partir pra guerra. Então aceitei, enrolando a coragem e o orgulho, queimando as mãos e a face de vergonha ao dizer sempre que a culpa era minha, quando ninguém tinha culpa.

Eu escrevo sobre você para tirar você da minha vida, para excomungar meu sentimento, para que em um esforço eu possa respirar sem suspirar teu nome.

E durante todo esse processo meu coração bate tão alto, como se fosse estivesse ao meu lado dizendo que nada daria errado, e que no teu abraço o mundo seria mais seguro.

Eu tentei beijar outras bocas, mas eu negarei sempre isso para você. Entre frases banais e o gozo sem graça, eu morria mil vezes.

Esse amor é estranho, não some mesmo eu esfregando minha pele em outra, transformando meu tempo de paz em guerra, uma guerra contra um fantasma, entre a razão e a emoção, onde quem sai perdendo é o coração.

Eu tentei morrer de amor, mas continuei acordando todos os dias sob a sua sombra, alimentando a expectativa de uma ligação, de uma visita, transitando entre a imaginação e a frustração.

Eu sinto todos os sintomas de um membro amputado, a dor, o vazio, a sensação de que ele ainda está lá, mas quando olho, percebo que é ilusão.

Morrer de amor não é ruim, não morrer de amor é trágico, e a cada dia um ciclo novo de sofrimentos, expectativas e taquicardias.

Eu tentei te agradar com livros, vinho e flores, mas os livros não tem a mesma paixão e o vinho ainda é novo, e as flores, bem, as flores não sobrevivem ao abandono.

E é assim que eu me encontrei vagando pela cidade, um abismo, um caminho que nem sempre gostamos de percorrer, mas o cruzamos quando necessário.

Os versos me salvaram, me trouxeram a realidade e por um instante não senti mais a dor da falta, nem a dívida da saudade.

Eu criei coragem e segui em frente, mesmo dolorido, mesmo colocando os olhos sem brilho em uma nova direção, as lágrimas lavando meu peito e o delírio se perdendo dentro de mim.

A cada dia sua imagem se transforma, o vento já não me assombra e não dita mais os caminhos, o silêncio inunda sem causar pânico e outras peles incendeiam meus versos.

Não deixei de te amar, só de te esperar.

Marcello Lopes

13 de maio de 2012

#98


Posso ver o resultado das escolhas como ondas que buscam respostas e depois as confessam entre espumas esbranquiçadas.

Arrastam consigo os corações, silenciosos ou não, sentimentos e sorrisos abandonados que o sol inflama.

Essas escolhas que buscam o caminho de todas as coisas, nem desconfiam que suas próprias sombras dão sentido à nossa vida. 

Eu procurei por muito tempo escolhas que me fizessem caminhar do lado de fora da vida, desenhando à margem uma história que mostrava mais fragilidade do que coragem. 

Sou um nômade que se enganou e achou que por um instante acharia o caminho certo para estampar o sorriso e com invejável felicidade atrair como imã a mulher dos meus sonhos. 

De todos os desejos que eu possuía, a simplicidade sempre foi a minha meta, um instante da rotina conjugal que se inicia com um olhar no silêncio da manhã e termina com as harmonias aleatórias de uma noite estrelada. 

As escolhas depois de feitas tem vida própria, nos dias seguintes o coração perde o fôlego, os olhos umedecem e as mãos se afligem diante dos acontecimentos. 

Espero impaciente o presente já que o inesperado diante das escolhas perpassa as expectativas e suas consequências abençoam ou não nossos dias, e de todas as dores que me atingem, a angústia é a que mais dói. 

O fogo da paixão, as lágrimas de não ter, todos os pedidos de perdão escorreram das mãos, dos olhos, dos versos, mas as escolhas cobram seu preço, mesmo que você mude suas atitudes. 

Há os sentimentos de derrota, da declaração amarga do fracasso, aquele sentimento ressequido dentro do peito, os pensamentos tardiamente fabricados com todas as desculpas e argumentos possíveis.

Então sinto as súbitas rajadas frias de ventos que anunciam a tempestade, a aspereza dos ferimentos em contato com a realidade, a precipitação e a percepção de que os nossos olhos nunca mais se encontrarão. 

São momentos terríveis que afogam todo o tipo de vontade, que obstruem por trás dos véus lacrimosos toda a visão real das nossas escolhas.

Marcello Lopes

7 de maio de 2012

#97


Eu, poeta solitário pari dessas mãos venturosos versos para preencher minha vida de amor.

Eu, homem impetuoso, abriguei em meus braços todas as ninfas que se escondem sob a inspiração carnal.

Mas foi o mar com seus doces redemoinhos que repousam sobre a pele que originou a minha maior obra-prima.

Sereia perdida na tempestade em um oceano profundo e infinito, com seus olhos calmos trouxe mudanças em minha vida.

Apaziguou as ondas ao meu redor, fecundou as páginas da minha vida e fez nascer um novo homem.

A minha musa pariu dentro da minha história, uma geração de poemas repletos de afetos azuis, carícias vermelhas que exprimiam a beleza da nossa paixão.

Mas para tê-la em minha vida, o antigo homem precisou atravessar as dores, diferentes humilhações, como o diamante que precisa ser aparado e somente sob a força do artesão.

Reduzido a uma mera lembrança na sereia, daquelas que devoram a alma, constrangem a fala e rondam o pensamento todos os dias, ele desceu ao inferno repercutindo sua dor.

Vazio de conteúdo, mas repleto de palavras sua individualidade desapareceu, sua poesia foi substituída pela música, os versos pelos arpejos, e desse instante assombroso originou-se outro poeta, dividido entre a passionalidade intensa dos românticos e o endurecimento dos racionais.

Hoje, esse novo homem caminha outras trilhas, estremecido pelas mudanças ainda tenras em seu espírito, criando situações e instantes onde suas antigas falhas não o governem, e que a estagnação vivida não seja mais um obstáculo em sua caminhada.

Esse poeta que beijava como escrevia versos, colore sua vida de carmim e mantém a paixão sob a brancura da neve, esperando ainda a sereia.

Sua sereia, de aspecto magnífico, percorre outros oceanos, provocando em outros os mesmos encantos e efervescência, mas tanto ela como ele, sabem que o amor que compartilharam é único, e que ele agora jaz inerte dividido entre o receio dela ser feliz e o dele de falhar.

Esse mesmo amor que sussurra todos os dias em seu peito, enquanto seu sorriso diz outras palavras, as lembranças dos beijos ainda provoca arrepio mesmo que o corpo não traia o momento, e até mesmo a voz ressoa fundo na alma, mesmo quando os ouvidos tendem a escutar outras poesias.

Mas essa paixão provocou na sereia algo que ela nunca tinha tido, fugiu do normal, do cotidiano, e as lembranças do poeta graciosamente flutuam em sua vida, emergindo em instantes que cobram sutilmente comparações, como o partilhar de algumas frases, folheando um livro, criando nela antigas saudades.

O poeta é capaz de reproduzir todas as conversas, todas as risadas, os sorrisos, tons e harmonias quando se amavam jogados no chão.

As lágrimas que caem de seus olhos são transformadas em versos, sopros de um poderoso esforço para não enlouquecer diante de tanta dor.

Juntos, poeta e sereia evocavam sublimes momentos que eram construídos por genuínos afetos, sinceridade e de certa forma, essa paixão os protegia da cruel realidade.

Eles eram abrigados e afinados, existiam de fato apenas quando estavam juntos, como se fossem metades perfeitas que se encaixavam de forma graciosa, em um mundo de multiplicidade divergente, eles eram perfeitos.

Se anunciavam sem palavras, se entendiam pela sintonia.

A cada momento vivido com ela, nascia um verso.

Marcello Lopes

6 de maio de 2012

# 95







O mar, imensidão líquida de lágrimas derramadas pelas vidas perdidas ao vento.

Marcello Lopes 

2 de maio de 2012

#94



Foi assim que a ilusão mergulhou na noite. 
E de susto em susto, descobri que os sonhos filtram a realidade,  
condensando-a em gotas de breves felicidades. 
Autor: Marcello Lopes