19 de junho de 2012

# 101



Havia algo de excitante e erótico em me sentir quase frágil, coloquei minhas mãos entre suas coxas e como seu sorriso tivesse me dado a permissão para avançar mais, o fiz lentamente, sentindo a suavidade da sua pele, o movimento suave do interior da sua coxa sob o tecido da cinta liga me desafiava cada vez mais a descobrir sua geografia.

Prossegui, e percebi em seu rosto um brilho de encorajamento, permitindo a carícia íntima, o toque úmido fazendo com que as minhas emoções se desmontassem uma a uma.


Seu corpo esguio de menina se posicionou em cima do meu, os contornos arredondados dos quadris e nádegas me sugeriam a todo o momento instantes de puro prazer.

Com as mãos trêmulas desbravava seus seios, erguendo-os, transtornando-os de tal forma que minhas pernas ficaram bambas e meu peito ansiava por ar.

Eu praticava todos os atos sensuais naquele momento enquanto você dançava alegremente junto ao meu corpo, em um vasto repertório de expressões faciais que me ensinaram quais lugares beijar e quais gestos a excitavam mais.

Percorri seu corpo inteiro de um modo amoroso, e senti que a amava naquela fração de segundo, trazendo para a nossa experiência um significado mais profundo que nossa simples amizade.

Suado e ofegante deitei-me ao seu lado, o orgasmo nos atingiu como uma flecha incandescente, e com esforço nos distanciamos mas mantivemos as cabeças juntas e assim com o coração acelerado e os olhos buscando insaciavelmente suas curvas lembrei que precisava respirar.

Na cama os dois corpos inertes, repletos de gozo se comportavam de uma forma lânguida, quase cerimonial, suas mãos sem adornos me lembravam da simplicidade da vida, seus gestos ao mesmo tempo mundanos e sagrado distanciavam a imagem que eu fazia da mulher com quem conversava.

E mesmo assim eu a desejava com uma paixão quase animal, ansiava pelo corpo, pelas curvas e pele sedosa.

Lançando-me olhares rápidos, você me falou sobre poesia, flores e livros, e meu coração bateu acelerado novamente quando percebi que me aguardava com sofisticada expectativa, como uma mulher que toma pra si o papel de uma dama secular, oferecendo assim a mão para que eu refrescasse minha boca seca, e os seios para que eu queimasse meu corpo, já febril de tanto amor.

Assim compartilhamos um tipo de amor que para os outros é imperceptível, e enquanto nossos corpos queimavam, os versos iluminavam nossa história.

Texto: Marcello Lopes

11 de junho de 2012

# 100


Quantas lágrimas precisam ser derramadas até que encontremos o caminho para amar ?

Parece que nada nem ninguém consegue redimir o desamparo que esse vazio nos traz, a capacidade de nos sentirmos roubados de todos os sonhos, de todos os desejos que estiveram ao nosso alcance.

Quantas lágrimas serão necessárias para de uma forma lenta e constante desabrocharmos?

No silêncio constrangedor depois da palavra triste, da ausência do afeto na hora da partida que nos faz querer recolher a alma em um abismo interminável.

A cegueira que as vertigens apaixonadas produzem criam ilusões que duram a vida toda, improváveis paradigmas do coração.

Quantas dessas lágrimas irão produzir verdadeiros tsunamis em vidas plácidas, desarmonia em forma de gestos incompreendidos e palavras nunca ditas ?

O poeta sofre por todos, criando empatia pela dor alheia e pela incessante germinação do amor.

As lágrimas são o aprendizado no sabor da matéria partida em pedaços.

A paixão é o movimento constante de sentimentos, orgasmos e vertigens, são momentos em que uma palavra não é necessária, que a comunicação se faz com a pele, com a sombra e o sangue.

É poesia e sexo, incêndio compartilhado, eternidade em instantes de longos encontros e breves despedidas, e nossa existência não seria nada sem esses momentos.

A maior violência que sofremos é essa dor da separação, atos impossíveis de se evitar.

As lágrimas são um pedido desesperado de ajuda, é um chamado ao coração, é a declaração da alma a distância que se alarga e sufoca, é a semente que morre sem delicadeza.

No fim destruímos todos os jardins que plantamos ao longo do caminho, criamos passagens secretas na terra afogada pelos planos desfeitos, transformamos a vida em saudades, em desesperança.

Mas as lágrimas são a prova de que ainda estamos vivos, de que as lembranças doces não são material descartável e que a vida é preciosa e a natureza rega nosso peito com as próprias águas.

Buscamos então explicações para a distância, trocamos aprendizados e sofremos pelas modificações de rotina em nossas vidas, algumas ansiosas pela cura, outras imersas em sensações anestesiantes.

Redefinimos nossas prioridades, nos permitimos dizer que sentiremos essa paixão outra vez, por outra pessoa e nos sentimos gratos pela felicidade nítida que essa fé nos apresenta.

Caminhamos imaginando que podemos reinventar nossa essência, que com calma e clareza encontraremos a   plenitude e deslocaremos todo o passado para longe do nosso coração.

Mas as lágrimas estão aí para provar que nada é perfeito, o nosso aprendizado independe dos outros enquanto nossas mãos bordam nossos nomes em outros corpos, desfrutam o conforto do amor alheio, habitam outra casa, saboreiam outras línguas podemos partilhar as dores e imperfeições e começamos a caminhar de um modo circular.

Marcello Lopes