10 de julho de 2012

# 102


Profundamente misteriosa, te encontrei sentada na sala à minha espera, vestindo apenas a cinta liga de cor rubra como a minha excitação ao te ver tão selvagem.

Na cumplicidade desse momento senti uma corrente oculta subindo dos pés a cabeça, criando assim uma secreta familiaridade com esses teus jogos sensuais.

Como se quisesse me indicar o caminho a tomar, agitou o corpo em minha direção e colocou as mãos em meu rosto de uma forma que decididamente me deixava excitado.

O silêncio que dominava a sala reverberava em minhas mãos, pálpebras e costas, e com uma das mãos em meu rosto e outra me guiou rumo ao quarto.

Aos poucos sua voz foi ganhando volume, ordenando minhas ações, que meus olhos não fossem abertos, e de vez em quando murmurando a verdadeira intenção da tua performance.

Lançou-me a cama, apertando meus braços, excitada por estar no comando, a sensação de submissão era intensa e revigorante.

A manipulação do corpo alheio e sintonizado no sexo é um poderoso fetiche.

Quando eu delicadamente penetro em seu corpo, sua imagem resplandece diante de mim, longos suspiros me levam a adorar suas coxas alvas, dedicadas a me provocar.

Continuo te amando, criando história, descobrindo situações excitantes que justificam essa loucura, nossas mãos são apenas um ponto de conexão entre o desejo e o deslocamento dos corpos, sinto a sua cinta entre meus dedos e laços se afrouxando e contemplo além da sua pele o sangue rubro que pulsa.

Dos seus desejos faço um exercício, rabisco em seus pés mensagens para lamber, beijo seus seios com a obrigação de nunca morrer de dor, enquanto tantos morrem por pouco, quero me afogar nesse abandono que se transforma seu corpo.

Esse romance é como um arrebatamento, uma carência de pele que se alimenta vorazmente das inseguranças do cotidiano e termina buscando vestígios de um romance qualquer nas rimas e prosas sussurradas entre os lençóis.

A paixão foi exaustivamente contada em versos e canções, instantes da nossa vida que parece assombrada pela presença sempre tão frágil e carente do amor.

As poesias que eu escrevo são refratárias a depressões e solidões incontidas, elas concentram em suas linhas o transbordamento de uma ou mais sensações que nos invade quando fazemos amor.

Em meio a pessoas invejosas e conservadoras, somos chamados de transgressores da paixão e recusamos todos os tipos de rótulos e jamais falamos de nosso amor.

Meu amor é hoje o melhor monumento a você.

Imagens desse amor nunca me abandonam mesmo quando caminho pelas ruas de uma cidade desconhecida ou beijo outras bocas, aquele calor nunca me deixa, o cheiro do seu sexo partilha inúmeros instantes de assombro com minha pele.

Texto: Marcello Lopes