26 de setembro de 2012

# 104



Podíamos parar um pouco de nos preocuparmos com o futuro, quero sentar ao seu lado e reconhecer os sinais, contemplar o dia passar sem depender das correntes que os horários nos envolve, sem depender de ninguém, discutindo com você todas as vastas conexões que a poesia entrelaça.

Podíamos olhar atentamente as ondas intermináveis que lentamente banham nossos pés, e ter tempo de digerir todas as informações, imagens, citações dessa nossa vida.

Quero continuar ao seu lado, caminhando noite afora, matar a saudade da sua voz, do seu sotaque, contar histórias, misturar os tons e idealizar encantos.

Podíamos declamar todos os poemas que nos emocionam e que estão desaparecidos entre tantas canções.

O vento que nasce do nosso caminhar parece cansado e nos esquecemos que sempre voltamos ao tesão que um dia compartilhamos.

Descobrimos ao longo do caminho pequenas conchas, testemunhas de que a vida segue seu curso inexorável e agora temos novos assuntos para evitar aqueles silêncios constrangedores.

Ao seu lado, ouvindo-a contar sobre suas aventuras, seus amores, pequenos fragmentos tão caros para mim, percebi o quanto eu ainda sou apaixonado por você.

Registro cada movimento seu, cada ondular dos seus cabelos sob o sol que nos queima a pele.

Tento timidamente entretê-la com meus versos, que secretamente escrevi sob seu nome, trazendo assim uma suave intimidade entre nós.

Seguro sua mão quente e macia e observo seu pescoço tão fino e alvo e percebo que meu amor é transparente. Nossos corpos já disseram o que nossos lábios tanto evitaram.

Ás vezes, nem todas as palavras são as certas, mas ainda acho que devemos escrevê-las.

O dia extinguiu-se sem dor, nosso desejo nos toma a fronte e dançamos entre sussurros e palavras mantendo a distância do que nos envolve.

Quando tudo se tornou silêncio, nossa pele ditou as regras.

Eu a olho e você desvia o olhar, você me toca e eu me afasto, nesse jogo percebo que à beira da emoção a vida é mais intensa.

Os cômodos escuros nos estimulam ao leve toque das mãos, o roçar do seus cabelos no meu rosto, e então deslizamos de um lugar ao outro, sucumbindo aos desejos da pele, nos surpreendendo com a excitação que nossa pele nos causa.

No quarto te observo se despir e calmamente me aproximo com uma devoção quase divina, beijando seus seios enquanto minhas mãos desajeitadamente percorrem todo o seu corpo.

Aprendo a te amar ao longo da noite e aos poucos nos saciamos.

Ao nascer do dia contemplo sua pele perfeita cujo o aroma me embriaga e perturba meus sentidos.

Você me beija e olha longamente, dizendo que a primeira excitação que teve foi com o meu cheiro, de como ele a acariciou sua pele antes mesmo que eu a tocasse.

Vagamos em silêncio pela casa, testemunha do nosso amor, tentamos reter a memória do nosso gozo, na varanda nos abraçamos rodeados pelas flores do jardim, elas misturam seu odor com o do nosso corpo, assim como nossos sonhos se entrelaçam a medida que nos olhamos.

Marcello Lopes

17 de setembro de 2012

# 103

Rabisco à margem da vida versos que atravessam os olhos e conciliam a alma.

Feitos de um só sentimento e com a hesitação dos apaixonados eles parecem reunir amor e tesão, pois essas palavras não são apenas um guia amoroso para os românticos, são pontos iluminados entre os espaços que as pessoas cultivam entre si.

Se meus versos balançam ao capricho das paixões fugazes, eles valem ao menos para os olhos.

Quando amor e poesia fundem-se na simplicidade da musa e na ingenuidade do poeta uma imagem única e incrível é carregada de mistério e refaz a ligação entre a pele e a eternidade do sentimento.

Os poemas que escrevo são desprovidos de ambição, são carregados pela ausência dolorosa de uma paixão e pela falta de destreza das mãos ao escrever sobre os acidentes e incidentes da minha vida.

O fio que une a pessoa à minha poesia é evidente e complexo, e é somente distinguido pelos atalhos que a vida nos apresenta, divertimentos criados fora do espaços limitados que alguns insistem em criar.

Meus poemas são montagens, recortes de sentimentos, alucinações atadas e divagações desatadas sob a forma de palavras (nem sempre perfeitas).

As musas deixam em meu corpo emanações que adornam meus versos, e enriquecem minha caminhada.

Meu coração dá asas à esses relacionamentos sem comprometimento, e vejo-os flutuando no horizonte das páginas de um manuscrito e acrescento meus devaneios nas linhas que se tornam uma pálida organização dos meus sentimentos.

Me alimento e transformo essas palavras de diálogos e situações inventadas, que se afinam à medida que a poesia aflora, fazendo nascer em mim uma alternância entre corpo e texto, um balanço perfeito sem fim.

Marcello Lopes