10 de outubro de 2012

# 106


Meus poemas respiram os aromas do seu corpo, se move como um ser vivo entre suas saliências,
traçando poeticamente um caminho.

Meu poema reage ao seu nome, nos gestos que incorporam sua existência, e na experiência de te compreender.

A força da minha paixão combina com a singularidade do seu viver, simbolizando sua arte pelos meus versos, essas frases tão favorecidas pela sua amável disposição de encontrar em tudo que fazemos uma maneira de ser feliz.

A criação dos versos é feita de sentimentos e desenhos rabiscados em seu corpo, redefinindo a minha percepção de que a sua beleza dá forma e conteúdo à minha vida.

Meus versos alternam cores, sabores e desejos, tudo se modifica de acordo com o que você lê e vê em mim.

O poema é o encontro de almas, poeta e musa na mesma página virgem, é explosão de pele, de odores que só podem ser apreciados por quem ama sem medo.

É preciso aceitar a falta de métrica e o incômodo de uma prosa simplória como sinais de beleza desse amor.

Marcello Lopes

4 de outubro de 2012

# 105


Havia pouca gente no vagão, o clima loucamente orbitava entre calor excessivo e o frio congelante, trazendo para a vida das pessoas um sentimento de indiferença, quase alheamento.

Lá fora o trem rugia, se insinuando entre túneis escuros e sujos, estava sentado em um dos bancos distraído com um jogo mental que costumo fazer em dias preguiçosos. Escolho uma pessoa e imagino como é sua vida, seus hábitos.

Encontro a figura de um homem, bem vestido mas aparentemente desprovido de emoções, já que seu rosto é uma máscara que ele esconde ou preserva seus verdadeiros pensamentos, fiquei pensando longamente em como poderia ser sua vida.

Esse homem parece nunca ter feito nada além de locomover de sua casa para o trabalho e tem sido esse, e apenas esse, o sentido de sua vida. É o único lugar onde ele se sente seguro, no controle total de suas emoções, onde ele escolhe o temperamento mais cinza que existe para lidar com seus outros colegas.

Ali no trem, ele encarna um personagem, uma pálida cópia do que ele realmente é, o mais indiferente, petrificado ser humano que existe.

É um homem exilado da sua própria natureza, imitando as convenções que o mundo impõe, sua necessidade de passar despercebido é imensa, e sua estratégia consiste em não promover nenhum contato visual ou físico com os outros.

Sua própria aparência é um desmentido à sua própria natureza.

Ao meu ver, esse homem esconde um lado negro, protegido por uma couraça que não permite nenhum sentimento ou emoção aflorar. Essa proteção é capaz de se sustentar mesmo quando seus ideais são colocados em xeque nas raras interações sociais.

Ao se encontrar encurralado pelas pessoas no vagão, esse homem nunca dirige o olhar para alguém.

Para ele, a distância tem a função de revelar o mundo com a segurança aos seus olhos indiferentes, longe de qualquer contato existe o seu terreno sagrado onde não há dores de consciência, impasses e divisões morais.

Para esse homem a falta de contato físico é um sentimento de alívio, algo que transborda em sua mente e corpo, e não deixa dúvida que isso é o essencial em sua vida.

Penso que esses pequenos fragmentos de interação social seja necessários para que esse homem não desapareça por completo, olhando-o à distância um homem que deseja regressar a seu lado mais primitivo, como se estivesse voltando para casa após uma longa ausência.

Ele revisita de modo ausente os lugares onde andou, repassa os curtos diálogos que esse corpo travou com outros, e encara essa vida como uma sucessão de imagens borradas e descoloridas.

Há nessa ausência uma paz que me lembra a paz de um homem que se orgulha da proteção divina, um crente absoluto que vive imerso em sua fé.

Agora que ele saiu do vagão rumo ao desconhecido imagino que essa ausência é o grande mistério que esse homem carrega obsessivamente dentro de si, talvez projetado pelo seu próprio âmago.

Marcello Lopes