15 de dezembro de 2012

# 107

Um homem tem em frente de si páginas brancas de um diário, ele aos poucos pensa em sua própria vida e não decide se colocará sua história ao mesmo tempo incompleta e assustadora.

Essa história é repleta de silêncios doloridos, gritos reprimidos apesar de seus textos falarem mais alto que suas ações.

Sua vida é cinza, infiel, preenchida pelo amor pelos outros e menos por ele mesmo.

Seus textos são plenos de poder, de fidelidade à uma dimensão existente só em sua mente mas que deixam pistas do que poderia ser sua vida, desnudando assim uma parte do mistério que é esse homem.

Suas ações são ecos fracos de uma vida milenar, retalhos de sentimentos e opiniões que ele absorveu durante suas viagens.

O que seus olhos enxergam hoje é resultado das inúmeras leituras, repletas de emoção, de experimentações dentro de uma biblioteca.

As cores e gostos que ele devaneia, ele experimentou prazeirosamente entre parágrafos amarelados de livros e revistas.

Marcello Lopes

14 de dezembro de 2012

Fotografia


Eu te conheci em um curso de fotografia que fiz, me sentia tão bem trabalhando na câmara escura, e você me deslumbrava quando saíamos para fazer fotos externas.

Seu corpo me fascinava, e minha alma de poeta se deliciava com suas turbulências.

Você gostava de roubar os instantes e transformá-los em fotografias. Graças à você, encontrei o verso nas mãos de novo, me apaixonei pelas suas fotografias que faziam cada fibra do meu corpo despertar a cada quadro do seu rosto.

Eu gostava de tudo, enquadrar a vida, torná-la eterna, transportar momentos cotidianos através de quadros coloridos e molduras brancas.

E você sabia como poucas, resplandecer minha paixão por descrever a luminosidade nas tempestades.

Com seu sorriso reinventou meu desejo sem sobressaltos, bebeu da minha poesia e das dos gênios, lançando sempre palavras doces antes de me tocar com seus lábios.

Adormecia dentro de você sonhando com paisagens selvagens.

Sua presença espalhava a paixão sob as estrelas e eu, insaciável, me lambuzava dela.

Partimos num domingo de Novembro no mar da China, um sonho de arqueólogo, a ilusão de fotógrafo, estávamos apaixonados, teria sido capaz de descer ao inferno para poupá-la de qualquer sofrimento.

Eu te vi rindo dos amores cruéis que cultivamos ao longo da vida, lemos trechos de livros favoritos, Tanizaki está sempre conosco, pensei sorrindo.

Caminhamos tanto, fotografamos ainda mais.

Seu corpo dorme como de uma deusa esperando a aurora para ser amada, como se nadasse no éter, livre de gravidade.

Observei por horas a fio o contorno das suas mãos, o seu rosto tão tranquilo no leito onde sua alma sorri.

Filmei seu rosto, fotografei seus olhos, enquanto seus lábios me seduziam e suas mãos me desvendavam.

Nos amamos por um breve instante, como a luz de um relâmpago em seu mergulho terrestre.

Tenho agora o corpo solto como um barco tranquilo, e ainda observo na madrugada a sua luz muito depois de você ter ido embora.

As fotos e impressões, seus silêncios e sorrisos, meus olhares e sua boca, são recordações que ainda roubam meu fôlego.

Em nossas fotos me vejo agarrando um sonho de espuma, cintilante e espesso, que sob o forte vagalhão se desmancha na pele.

Você é eterna, na memória afetiva do meu corpo e nas polaróides, na pele do ombro marcado pelas suas lágrimas, dos incontáveis fotogramas dos seus seios pousados nos lençóis, dos seus pés vivos e reluzentes pousados nas minhas mãos.

Sinto saudades de desvendar seus mistérios, de testemunhar ao seu lado o crescimento de uma nova paixão.

Eu não te amava, eu te venerava.

Hoje no meu sono vou em sua direção, como um navio rasgando as ondas em direção ao mar.

Você partiu para me deixar crescer e sou grato pelo tempo que passamos amadurecendo.

Marcello Lopes