24 de outubro de 2013

# 128



A poesia implica a profanação do corpo sagrado, a disponibilidade dos versos separa a alma do corpo, a pele das mãos.

Profanar significa também espantar a surpresa e os sentimentos inescritos, buscando com os versos a pulsação do inédito, transgredindo todas as rimas, métricas e regras para inspirar, fluir e conquistar.

O poema instala sobre a musa a eternidade, o tempo perdido de todas as coisas boas, e explora a sensualidade através da experiência carnal do poeta.

A beleza do corpo, os poros e pele se torna a inesgotável fonte de inspiração que atravessa os tempos, abrange todas as raças e incide sobre a humanidade.

Marcello Lopes

14 de outubro de 2013

# 127



Me afoga ao som dos teus lábios puros que me atordoam com teus serenos movimentos.

Me afoga à sombra dos gestos que impedem os enganos de natureza trêmula.

Realidade e desejo me remetem aos teus sentidos presentes em minha poesia.

Me afoga abandonando em mim as intensas linguagens entrecortadas pelos suspiros de prazer.

Me afoga com sua ironia que assoma tuas palavras.

Em pequenas estrofes representadas pela tua face, como uma máscara que me fazem sonhar, instigar os sentimentos e amar o momento.

Me afoga nesse intenso fervor poético que tuas mãos constroem em todo o meu corpo.

Me afoga metamorfoseando teu corpo em versos conduzindo-me às sensações mais loucas.

Poema: Marcello Lopes

4 de outubro de 2013

# 126


Te encontrei nas areias da praia perto de casa, em nosso lugar preferido observando as ondas que encrespavam à medida que o vento soprava mais forte.

Adoramos esse momento, onde podemos deixar os pensamentos vagarem sem aquela obrigação de compartilhar tudo que vai em nossa cabeça.

Não que não compartilhássemos, mas é bom ter alguns momentos de silêncio, calar a alma excessivamente ativa que temos e esse lugar é como um observatório pacífico e saudável.

Sentei-me ao seu lado sem dizer nada, entrelacei minhas mãos nas suas, beijei-a no rosto e voltei meus olhos para o movimento das ondas.

Nesses momentos somos quase irmãos, mais amigos do que amantes, em nosso mutismo transmitimos tanta coisa, repetindo movimentos, sorrisos e respostas já tão conhecidas, mesmo um do lado do outro sabemos que o sorriso estampa nosso rosto, que o coração se sente tranquilo com o calor que nosso amor transmite.

O dia estava perfeito, não estávamos perdidos entre prazos e trabalhos, e assim distraídos pela natureza optamos por testemunhar a delicadeza do vento, o sal na boca, o sussurro das ondas.

A proximidade nos protege, as confidências nos fortalecem e os desafios da vida nos faz acreditar cada mais no futuro juntos, e assim brincamos na areia branca como a nossa pele, trazendo no silêncio do dia, a intimidade sincera e preservada.

Fecho os olhos e deixo a imaginação voar, e sou surpreendido por um beijo, um toque nas mãos e essa surpresa leva à um conforto escandaloso!

Seus olhos brilham, e as palavras chegam embriagando meus sentidos, o afeto que elas reproduzem ainda me espantam, o diálogo prossegue e nos proporciona entendimento, cumplicidade.

Nos levantamos e caminhamos sobre a areia, abraçados e colorindo o tempo com sorrisos e promessas de desejo e mágica. Voltamos lentamente para casa, reconhecendo no caminho o quanto tudo que vivemos é precioso, que o efeito revigorante do amor é o que nos sustenta.

Marcello Lopes

# 125


De mãos dadas nunca precisamos de muitas palavras, de muitos versos para dizer o que sentíamos, foi sempre na distância que nos tornamos mais prolixos.

Cara a cara somos como o haicai, versos ligeiros.

Marcello Lopes