25 de julho de 2014

# 138


Sou poeta e hoje posso escrever.

Nessas linhas percebo que sua ausência é oportuna, apesar de dolorida, ela me deixa livre para escrever já que minha voz se foi com você.

E porque não posso encontrá-la, nunca poderia tocá-la senão fosse pela poesia.

Deixei de ter posse do seu amor, e se me encontrasse agora, eu ficaria sem ação. O amor sumiu em uma vida que já foi minha, e quando escuto meus poemas sendo declamados não me reconheço neles, esses assuntos de amor eram meus somente quando estava com você.

Hoje escrevo sem inspiração, sem papel, sem pele, apenas com a saudade do seu amor. Essas palavras que eu derramo aqui nunca vieram de mim, nunca moraram no meu peito, escrevo assim sem ter ninguém para amar.

Não tenho mais memória afetiva, só amei você, uma fidelidade incansável que me levou até os sentimentos mais puros e sensações mais loucas, e mesmo assim você se afastou de mim, tirando todas as possibilidades de um futuro, e quando evaporou o seu cheiro de mim esqueci suas impressões e agora só resta seu nome.

Tenho saudades do som da sua risada, rasgando a noite, aquecendo meu peito, de como eu ficava grande ao seu lado, de como seu amor me elevava, engrandecia meu pensamento, minha inspiração.

Hoje sua ausência é meu refúgio, o meu conflito, pois, quando escrevo pensando em você, me esqueço e só era eu na sua presença.

Esta manhã, contemplei a paisagem de cimento que se transformou a cidade enquanto eu sofria sua ausência, extensões imensas de ruas asfaltadas e prédios gigantescos, e tudo que eu lembro era do nosso desejo de ir embora, serenar o corpo em alguma cidade afastada, arder de paixão em uma casa simples de quintal e varanda bem cuidados.

E esses sonhos que um dia eu tive, dilui-se bem devagar na claridade do dia que nasce, o momento é de dúvida, de duelo entre o coração e as memórias que dividem-se todos os dias.

Eu sei o que eu tenho a fazer, ainda durmo esperando que as rimas e os desejos sejam apenas um, que o poema antes indefeso recorde que agora não há mais inspiração e que eles precisam de cuidado.

Na distância está sua imagem, estende-se por todos os objetos da casa, desnivelando meu peito, balançando assim todas as palavras que acompanham meus humores, meus devaneios.

Reconheço suas impressões digitais em meus livros, meu corpo ainda transporta dezenas de toques e beijos e assim suporto o cotidiano cinza, como se quisesse derrotar essa separação e escapar debaixo de textos submersos que pouco a pouco seguram o peso da expectativa de ficar sem você em definitivo.

De barba mal feita, debaixo da minha pele ainda resta rente à pele resquícios do seu amor, e apesar do frio escorrego em ondas de calor só de lembrar quando você respirava meu ar, beijando e dormindo no meu peito.

Poemas dormem esquecidos esperando momentos de felicidade, esperando serem despertados apesar do sofrimento da imobilidade, porque os poemas são elementos vivos, uma vez escritos, eles criam caminhos aleatórios dispostos  para quem os lê com uma força e ternura, e assim durante anos e anos transformam vidas.

Sei que não sou melhor que ninguém, lido com os meus medos, os segredos e ausências, partilho meus sentimentos que se distinguem dos outros apenas pela rima, forma e fraqueza.

Há momentos em que o sexo flerta comigo, fingindo uma espécie de provocação, me seguindo, atravessando e às vezes, clareando meu caminho, mas sua memória é permanente.

Marcello Lopes

24 de julho de 2014

# 137



Sua forma, meu dia de contemplação.

Palavras estão sempre presentes perante a beleza da sua vida, meço meu amor pelas memórias que se perpetuam na minha pele.

A movimentação da sua vida indica as rimas que concentro nessas páginas particulares.

A concentração da minha vida acontece ao redor da sua.

A dimensão do tempo se torna referência apenas quando seu corpo prolonga meu prazer, quando suas mãos sublinham no meu corpo os seus sentimentos e significados.

O poema tem a tarefa de aumentar o que não acontece, torna-se assim ferramenta do olhar sobre o instante vivido ou percebido por nós.

Escrever poesia e interpretar o tempo sob a perspectiva da paixão, polariza o imprevisível.

Em seu corpo estendido sobre o meu, meus versos indicam uma vida desejada, a pura expressão do lúdico.

Em seu corpo a maneira do sol entrar no meu, de olhares nascentes, das cores que latejam ao tocar a pele, e pousam na solidão das mãos.

A criação poética exemplificada em cada poro, em cada conceito de prazer que descobrimos juntos aprofunda esse meu sentimento de pertencimento.

Marcello Lopes

10 de julho de 2014

# 136



O romance começa numa canção, coração que pulsa e que envolve a abertura de um capítulo na vida que se mistura com a ficção, essa canção proclama paixão que se desdobra em cada instante, se harmoniza a cada olhar.

São as páginas do livro mais lindo que alguém escreveu, e sobre ele paira os sonhos e suas tonalidades.

O romance desabotoa toda dificuldade, revela o que há de melhor em nós, emite lampejos de esperança para aqueles que tombaram na estrada, clareia os olhos míopes e cansados daqueles que se cegaram pela dor.

Os romances são sempre muito parecidos, pouco importa a pessoa amada, é paixão que converge para informar os desavisados de que se trata de uma avalanche de cores e rumores.

Quem está apaixonado já conhece essa sensação, o cheiro que fica após o sexo, as luzes e frases dissolvidas em sussurros se incumbem de compor paisagens e só são descobertas quando se descobre o amor.

A canção que se ouve se concretiza por uma combinação de vozes e gestos que se combinam e dão sentido para esse sentimento tão forte.

Marcello Lopes

9 de julho de 2014

# 135



Nem tudo correu como eu queria, sempre houve um desvio, um obstáculo que me impedia de ficar com você, uma chance perdida, e eu sempre me preocupando tanto.

Não sei porque temo perdê-la, ou se é o anseio que me move tão desesperadamente em busca do seu toque, da sua pele, o que me parece certo é que não se trata de um amor qualquer, daqueles que raras pessoas encontram e muitos fingem ter.

É inútil olhar pela janela e esperar um milagre, há muito já teria tido acontecido, mas atormentar-me com a sua falta é uma mania que carrego e na esperança de fazer o tempo passar me ocorre de restabelecer o pensamento em você.

Já atravessei muitos caminhos, vi dezenas de praças e todas as vezes você estava lá, encostada em uma parede cinza me atirando sussurros e sorrisos, e suspenso nesse devaneio sigo em frente, as cidades que eu percorro não tem nome, nem mesmo sei onde ficam seus prédios, sei apenas que não devo me demorar e assim continuo a me afastar delas.

Continuo a engolir sonhos e frustrações que a vida insiste em cuspir em minha direção, são muitos para um único objetivo.

Não sei mais onde se encontram os amigos que um dia me aconselharam a desistir do meu sonho de ficar ao seu lado, é evidente que eles se perderam em seus próprios sonhos, em suas trilhas e por motivos pessoais viajam por conta própria.

Uma tristeza me atinge quando penso nisso mas sou parte de uma engrenagem complexa chamada vida, fadado à coisas simples, sem grandes acontecimentos.

Não falo com ninguém sobre você, seu amor me deixou marcas, e se eu disser o que me acomete quando penso em você essas palavras podem levá-las ainda mais distante de mim, então talvez por isso eu acumule tantos vãos, tantas suposições silenciosas que permanecem por longos períodos em completo silêncio.

Só me destaco quando estou ao seu lado, e caminhando nessa paisagem anônima quase não consigo me distinguir em meio à essas cidades.

Mas você me conhece muito bem, sabe tudo sobre a minha vida e por isso é suficiente pra que eu sobreviva e me sinta levado em sua direção.

Não tenho a intenção de falar sobre mim  mesmo, e sim sobre o seu amor que decidiu me nomear como beneficiário, que subtraiu a solidão dos meus olhos, e com gestos precisos consegue me descrever tão bem.

Esse seu carinho despojado se identifica comigo, meu comportamento, nossa experiência, segue os princípios de um verdadeiro romance.

Quanto mais cinzento o dia, mais determinado nosso amor se torna, a cada sombra de perigo que se aproxima, mais nos desfazemos dos sentimentos mesquinhos, porque para enfrentar o presente, devemos anular certos acontecimentos do passado e nos livrar do fantasma do futuro.

Mas todo o momento da minha vida trouxe comigo um certo acúmulo de esperanças por dias melhores, e isso sempre acarretou em mim consequências, nem sempre com resultados apreciáveis.

Todos os meus atos geram uma avalanche de novas consequências, um ato errado complica ainda mais minha busca pelo seu amor, um certo porém, traz consigo um alívio.

Coisas absolutamente casuais me reconectam ao caminho, um comentário, uma frase separam os caminhos e manobro habilmente para não me afastar do caminho que me levará à felicidade das suas mãos.

Meu plano não é perfeito, basta uma complicação mínima para alterar todos os movimentos, e agora estou aqui, no final dessa cidade vazia, um último ser humano à espera de alguma luz que me arrastará para a trilha mais correta.

Vejo entre os caminhos, pessoas que se conhecem, pessoas que nada tem a ver com o caminho, mas que se movem até onde podem, talvez porque a esperança seja algo que não exista em alguns caminhos e tampouco eles conheçam o significado de desistir.

Todos os lugares que eu fui se comunicam entre si, através de instantes em minha vida, através de alguma canção que se encerra no meu peito.

A ideia de que nunca nos encontraremos não me atinge, mas ela pode ser vista durante o meu trajeto de um lugar ao outro, através dos desconhecidos deixados para trás, sem um aqui, e muito menos um lá.

Observo a vida de uma pessoa comum e percebo que fui excluído das vontades mais banais por muito tempo, seu amor nunca deixou de me iluminar, nunca caí na escuridão sem ter comigo um pensamento em mente, você.

Talvez os outros sintam inveja, mesmo em momentos que encontram seu amor, e estão prontos para fazer uma troca porque ainda não entenderam que a paixão é uma coleta perene de atitudes, de pensamentos positivos e de palavras luminosas.

Meu romance é formado de fragmentos de conversas, de ações que parecem servir apenas para representar o meu eu, a vida cotidiana dentro do meu peito.

Todo novo amor é continuação do antigo, tudo é tão íntimo, as provocações são amenas e o escuro serve para ocultar a imagem que ainda insiste em nos confiscar a atenção.

Imagino como será nosso encontro, resultado de coincidências, será que iremos nos separar dos conhecidos, quem sabe nos tocaremos de leve e assim trocando desculpas nos perceberemos?

Um plano perfeito transformará o caos das vozes em longínquo burburinho indistinto, e aí ouviremos nossas palavras tão esperadas registrando nossa surpresa, e durante todo o tempo, tanto eu como você nos manteremos absortos em detalhes, ouvidos atentos, mãos em alerta.

E assim, o romance vai deixando para trás a aura de imaginação e imprecisão, e o momento vai nos dando detalhes e sensações mais sentidas nesses instantes mágicos.

Nos reconhecemos de imediato, não como encontramos pessoas nas mesmas ruas, mas é como desvendar um mistério da infância, momentos que se depositam em nossa memória e flutuam pelo corpo através das mãos.

Meu passatempo predileto é imaginar esse momento, apostando nos mínimos incidentes antes e depois do nosso encontro, uma existência completa dentro da minha própria. Mas eu sei que nunca poderei acertar todos os detalhes, as alternativas são ilimitadas.

Marcello Lopes