29 de setembro de 2014

# 144



Todo esse tempo pensando em você, escrevendo, recriando a beleza dos nossos momentos, relembrando aquele formigamento nos braços ao ouvir sua risada, o frio na barriga o tempo todo se misturando a imensa vontade de beijá-la.

Os olhos marejados com a declaração de paixão, a incredulidade depois de roubar um beijo seu, e a reação mais linda que já vi alguém ter intoxicou de felicidade meu sangue, meu peito.

Escrevo hoje em retrospectiva, pensando nos gestos discretos, nas risadas e em suas sobrancelhas arqueadas toda a vez que eu dizia algo surpreendente.

Todo esse tempo procurando, e você estava bem próxima, e vivemos um dia após o outro sem experimentar até aquele instante a delícia da sincronicidade.

Quase simultaneamente, sem mesmo se dar conta começamos a fazer coisas que nunca fizemos, rimos das mesmas situações deprimentes que nos encontramos no passado, sorrimos ao lembrar de pessoas que não nos entenderam ou não quiseram entender, em meio a declarações e fragmentos de instantes constrangedores forjamos um elo, uma insana e deliciosa aproximação física e íntima.

Então um dia, assim, sem aviso nos pegamos acordando juntos, agindo de modo amoroso e instintivo, abrindo segredos um para o outro no sofá, repetindo frases e discursos na cozinha, capturando olhares e carícias para depois revidar sobre tudo isso na cama.

Pintamos a sala, os quartos, compramos mobília e quase como um borrão anos se passaram, e assim fomos perdendo a timidez, os segredos e à medida que nos amávamos nossa vida era violentamente atingida pelas ações e palavras que esse amor criava.

E de repente ouviu-se o choro convulsivo de uma nova vida que se formou à partir desse amor, pulsando no peito, revestindo-se de afeto em nossas mãos.

Marcello Lopes

19 de setembro de 2014

#143



Poucas palavras foram ditas, a imagem de uma traição vale mais do que mil poemas, ninguém saberia dizer o quanto aquela mulher sofreu, linhas e linhas imaginárias de versos e rimas não expressam tamanho sentimento.

Desesperadamente ela tenta fazer aquele homem entendê-la, a cegueira do coração é a pior forma de matar um amor, então ela grita porque eles não estão mais próximos, ela pede para que ele mostre o que ele realmente sente.

Essa mulher que abandonou tudo e todos para se dedicar ao marido, filhos, casa, sabe que é o último dia da sua vida, seu coração se fecha e sua família se afasta a cada segundo.

Com coragem ela o obrigou a dizer a verdade, insistiu na frustração de não ter as respostas para seus questionamentos, e com os olhos marejados viu o fim chegando.

Ele se tornou opaco, sem brilho e vida apesar dos esforços dela, do cuidado, do afeto que ela transmitia em tudo que fazia, do amor pelos filhos dele, pela chance que a vida deu à ela.

E nos momentos de sofrimento, se perguntava onde tudo que ela sonhou se perdeu, onde todos aqueles momentos felizes estão escondidos.

Durante anos ela relutou, encontrou as mesmas respostas para perguntas distintas, as dúvidas pesavam mais que o passar dos anos.

Ele nunca mudou, sempre se manteve fiel aos seus princípios, suas ideias, seus objetivos, negando à essa mulher um futuro, esquivando-se do afeto que ela proporcionava.

Até que o fim chegou, acabou o amor, a coragem, o beijo. O mundo ruiu e com ele se foi todas as esperanças dela.

Ela desistiu, dele, dos filhos dele, dela mesmo. Foi viver sem brilho, sentindo falta de tudo, menos dele.

A confusão dos sentimentos, solidão e dúvidas eram tudo que ela tinha nesse momento.

Então ela começou a entender que quem estava errada, era ela.

A sua entrega à ele, às palavras de esperança, todas as coisas que ela sonhou e idealizou foram erros cometidos e nunca antes percebidos.

Sua vida era uma eterna batalha para ser recompensada de alguma forma, caminhando sempre contra a corrente, contra os desejos, seus desejos e agora tudo ficou exposto, tudo desabou como uma casa sem alicerces, a tinta aos poucos foi descascando revelando a verdadeira cor do amor dele.

E entregue aos arrependimentos ela aprende, porque adquirir sabedoria é sofrer em uma dimensão e lógica desconhecida.

Ela se foi, não olhou para trás, desapegou-se de si mesma, assumiu uma identidade nova, inaugurando uma fase completamente nova e libertária da sua vida.

O início de uma nova dimensão, tendo os próprios olhos como leme.

Agora essa mulher tinha tantas oportunidades, no caminho aprendeu que o amor só é válido de dentro pra fora, que só serve a si próprio.

Encontrou outro homem, outra história, mas aprendeu que não morreria por ele, a possibilidade de um coração partido estava fora de cogitação.

Amava-o de um jeito diferente daquele primeiro, não se entregava totalmente e duvidava sempre de cada gesto de afeto.

Continua...

14 de setembro de 2014

# 142



Sou poeta e só sei escrever. Afinal de contas talvez seja essa a única oportunidade de alcançar você sempre que a sua ausência ameaça doer demais.

Meus simples versos já não são mais meus, deixei de possuí-los quando as palavras emigram para seu corpo, e quando eu os leio já não os reconheço porque se adaptaram ao seu convívio.

Eu escrevo como os românticos redigiam as suas cartas apenas com a saudade.

Meus poemas conheceram outras pessoas, as rimas provaram outras bocas e são endereçadas para outros amores, então escrevo sem ter nada que conquistar, porque sei que esses versos são tudo que nunca seremos.

Eu só amei você, e essa fidelidade me pesa, não se desliga de mim mesmo anos após nosso rompimento, meu amor por você foi meu exílio, minha ilha deserta, e as lembranças afastaram-me de outras possibilidades.

Agora entre tantos versos, só me resta aquele que eu escrevi para você.

Nessas linhas eu peço pra nascer para alguém, peço a oportunidade de colorir a vida de alguém com as cores que guardo nas mãos, no peito, que sempre borram essas páginas quando choro.

Me pergunto por que nunca me respondeu?

Sinto saudades de receber uma carta sua, sinto falta do contato com o envelope, aquela ansiedade de te ler, e as mãos trêmulas enquanto devoro suas palavras.

Quando nos víamos eu ficava geralmente sem palavras, sua energia me alimentava e engrandecia, por isso sou poeta porque quando estou longe de você me apequeno.

E esse é meu dilema, perto de você emudeço e longe me apequeno, eu SOU apenas no seu amor, e só me encontro na sua ausência.

Do outro lado da vida, extensões imensas de frases e pensamentos queimam e se consomem sem serem pronunciados, e quando tudo se acalma, minhas mãos flutuam no papel branco, cenário das minhas fantasias, local onde eu grito seu nome.

Meu amor é antiquado, remonta as emoções dos cancioneiros, dos trovadores que faziam do silêncio eco para a dor que comprimia os corações, e deixavam através dos poemas fluir todas as lágrimas.

Todos nós precisamos nos entregar a uma paixão, grafar na pele a alegria de fazer outra pessoa sorrir, de saber quando calar, amar e ouvir.

Sou uma palavra que um dia você escreveu, sou a folha que suas mãos acariciavam antes de um novo poema.

Marcello Lopes

11 de setembro de 2014

# 141



Escrever cada linha que pudesse manifestar todo o sentimento, que eu preencha meu peito, e essa sensação de que está reservado, de que não verá a luz do dia apesar do meu querer, até encontrar a musa certa. 

O meu peito percebe e recebe elementos, instaura um mundo de cores e humores na minha vida que somente a poesia controla. 

Há musas maravilhosas ao meu redor, cada uma com sua capacidade de amar e de viver intensamente, mas são intocáveis, e a cada constatação nesse sentido meu olhar assume uma lógica fraternal. 

Mas suas vidas me dão inspiração e sentido poético para escrever, a imaginação me oferece inúmeras possibilidades. 

Meus constantes atos congregam dentro de si, amor, carinho, proteção e desejo.

Ao percorrer minha história com elas, a poesia já me concede rimas perfeitas, encadeamento de emoções e palavras portadoras de desejos alegres, manifestando surpresa e sorrisos.

Elas se oferecem inconscientemente com leveza e espontaneidade, de tal forma que ao final do poema me encontro apaixonado pela ideia perfeita que criei delas. 

Esse enamoramento produz atos criativos mostrando o dia a dia do sentido dos poemas que altera a cada estado de paixão e torna-se fonte de felicidade, percepções alheias criam no peito um amor que se estende aos jorros na vida de outras pessoas.

O poema é feito não somente para agradar e conquistar, mas também para sugerir novas posturas, criar situações de afeto, constatar que existe poesia em toda a mulher.

E é aqui, nessa página, que eu inauguro um novo sentimento, a cada poema, a cada musa é como poetizar alguém além do que se é, do que se imagina.

Todas as palavras latejam paixão, pulsam de vontade de serem capazes de dar significado à uma vida, de completar o vazio do silêncio entre um olhar e um beijo.

A poesia brinca com a lógica, atrela vogais com sentimentos sem tropeçar no bom senso, e contamina quem quer ser feliz, tornando assim a expressão máxima do ato criador do poeta, é a entrega total da alma através da tinta, papel e sentimento.

O poeta perde-se em todo o amor que ele tem e exemplifica esse afeto através do poema, mostra como é o processo de apaixonamento e arrebatamento pela pessoa idealizada.

O mundo, as coisas, as pessoas e o próprio poeta estão em estado de graça, as rimas brotam e se expressam através do toque, do olhar e batalham através dos poros para se expor. 

Marcello Lopes