5 de dezembro de 2014

Sobre o acaso


Descobri logo cedo que não gosto das coisas planejadas, do enchimento dos dias por medo do ócio, do fingimento de sentimentos que já morreram, da falta de respeito maquiada por sorrisos e gestos impróprios.

Gosto de ser admirado pela brandura que minhas palavras transmitem, quero as raízes daquele respeito que proclamava os atos mais puros, gosto dos poemas daqueles que fazem brotar sorrisos.

E nos meus poemas gosto do acaso das palavras encaixadas no lugar certo, do abandono de qualquer regra gramatical, deixando a tarefa de nomeá-los para me concentrar em criá-los livremente.

Era o acaso que eu perseguia com todo o afinco, mergulhava nos intantes e me perdia em ecos sem nenhum arrependimento.

Sim, era o acaso que dizia baixinho no peito e na pele que o momento tinha chegado, que acariciava com uma brisa fria o rosto e deixava o peito arfando de tanta emoção, foi assim que eu comecei a escrever, acessando apenas os sentimentos que borbulhavam sob a pele.

Encontrei musas, criando uma comunhão que era o encantamento poético dos corpos, da relação homem-mulher, da elegância com o voracidade, a troca de prazer que apaixona, mãos e intenções enlaçadas, se convencendo de que a dor era parte do jogo.

Era o acaso que criava o momento perfeito, o acaso como uma explosão tingia tudo de um vermelho vivo, adocicado e assim seja pelo temor ou pelo desejo, me entregava loucamente à ele.

Alguns poemas falavam sobre amor, outros sobre a dor mas todos afirmavam a certeza de que o poeta se volta para os momentos mais conturbados da alma, o caos era o manancial inesgotável, o elemento primordial de toda a beleza criacionista.

Nos versos eu sempre desejei escrever a palavra perfeita, aquela que devolve ao mundo todo o trajeto do sentimento, toda a dor que resvalou no peito, e a aspereza da separação dos corpos.

O acaso revela muito da consistência do sentimento do poema e do poeta, impulsionando quem lê, quem sofre se entrega às palavras e segue o mesmo percurso, construindo sem querer um elo entre poeta e leitor.

O poema desvela sentimentos desconhecidos pra quem lê, cabe no papel e ao mesmo tempo se agiganta na vida, não se perde com o tempo, nem tampouco escorre pelas mãos, mas há de ter cuidados com ele, senão confessa as verdades que preenchem aquele que o lê.

O acaso poético acontece sempre quando as vontades se intercalam, quando os sentimentos mais puros compõem a paisagem do poeta, que apesar de belo e delicado, se apresenta com certa ferocidade, com precisão e rapidez.

A poesia e o acaso criam um conjunto que oferece ao poeta a comtemplação dos seus sentimentos e o fazem de modo enternecido, oferecendo imaginção e polimento.

O sentimento é bruto, estado informe dos desejos, o acaso dá ao artífice poético a chance de redimi-lo, de enfeitar e polir em versos o que lhe vai no peito.

Marcello Lopes