24 de março de 2015

#02





Apaixonar-se inúmeras vezes, quem nunca ?

Eu vivo me apaixonando, por cada história, cada gesto, cada cor diferente no céu, pelo barulho da chuva todas as vezes. Meu coração bate num ritmo de paixões, das mais variadas.

Mas hoje ocorreu apaixonar-me por um sorriso. 
Não um sorriso qualquer, desses de canto, escondido, tímido de janelas bem fechadas. 
Apaixonei-me por um sorriso largo. Um sorriso invasivo, que não me deixou escapar.
Esse sorriso, danado, abraçou meus olhos e não soltou mais. Fiquei aborrecida por cinco minutos, e depois me entreguei. Não havia outro jeito a não ser deleitar-me com aquele arco-íris branco por horas a fio. Eu juro, poderia viver dentro daquele sorriso visceral.

Eu sou louca, louquinha, apaixonar-me por uma pessoa vá, completamente compreensível. Agora, apaixonar-me  por um sorriso? Este contentamento só de percebê-lo aparecendo aos poucos, abrindo-se aos poucos, inebriando-me imediatamente. No instante em que ele se mostra inteiro, límpido, irremediavelmente perfeito o desejo para mim. E então questiono como posso desejar um sorriso.
Canso de imaginar o som dele, ofegante quando se abre para uma piada. Eu poderia matar o dono desse sorriso, caso ele o aposentasse dando lugar a tristeza disfarçada de melancolia. 

Eu poderia morrer ou viver quantas e tantas vezes por esse sorriso, plantar no meu jardim e regar todos os dias para fazer nele florescer minha felicidade. 

10 de março de 2015

Vaidade - Florbela Espanca


Sonho que sou a poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e sabe,
que tem a inspiração pura e perfeita,
que reúne num verso a imensidade.

Sonho que um verso meu tem claridade,
para encher todo o mundo! E que deleita
mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
e quando mais no alto ando voando.
acordo do meu sonho...

E não sou nada!

Florbela Espanca
Livro de mágoas - 1919

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Tradução 

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

William Ernest Henley (1849–1903)