23 de julho de 2015

Entre nós



Eu te uso para abrandar a espera, aprendi do jeito mais dolorido que cada fantasia dada pelos seus olhos, reserva-me uma erupção, de cores, desejos e da acolhedora imagem do seu colo a mais doce e pálida paixão que já senti.

Nosso encontro é tão longe quanto a realização dos sonhos.

Aos meus olhos sua imagem parece tão frágil, os acidentes, quedas e decepções me fizeram pensar que nunca mais iria vê-la, e a vida mais uma vez me ilude, trazendo-a mais forte sem no entanto me mostrar seu rosto.

O amor é o que sabemos e o que alcançamos, o cuidado é um sinal de afeto, e não tenho outra vida sem saber de você.

Meu amor não muda sua farda, não peço nada, sem pausas, sem apelos, eis minha carta repleta de intuições e lembranças.

Nas suas mãos carrega o ímpeto que não pode ser refreado, o coração tem muitas janelas, fundas e largas onde a memória se perde.

Meu coração partido se orgulha da dor que foi sua desde então, não achei terra nem céu, passa os dias febris sondando caminhos querendo te encontrar.

Somos estranhos e felizes, uma sombra que resvala na luminosidade do caminho, uma luz que se completa com esses desejos, que chega na pele sem pressa e encaixa no peito, o rosto arde e o corpo inteiro enrubesce.

Parte sempre dos meus sonhos como soldado, marchando pelos campos das ilusões que crio, dos pressentimentos que tenho porque estar vivo é poder imaginar você ao meu lado.

Guardo meus versos e teço meus fios por essas linhas, a distância amedronta e o silêncio que a segue acende a imaginação.

O tempo cura tudo, só não cura os desejos não realizados e tomo sua força para mim, uma esperança que ninguém resiste, longe daqui fica o meu amor.

Tenho por companhia essa agonia surda de te ver e não ter, de chorar mas amar.

A primavera é a época do ano que as flores não me ferem, tênues como a manhã, a distância entre nós.

Porque o tempo não é amigo, levo-me assim de novo aos sonhos, o paraíso é uma escolha que me foi vedada, uma chance que se torna a cada dia distante que o simples eu te amo se torna plausível.

Abro com devoção esse caderno, entre os dedos uma joia, nas linhas um gosto, de dentro do peito construo um casulo, o amor dá significado aos objetos.

A sua beleza emolduro em meu peito protegida do tempo e da realidade, invento cerimônias para beijar seus seios, e quando o dia acaba, vou para o seu encontro luminoso e perfumado.

Cada poema converge para um lugar, cada suspiro de paixão tem uma palavra que descreve amorosamente e as palavras na boca dos que estão felizes é pérola.

Uma promessa foi feita, nunca saberemos se não tentarmos, se não sairmos, corrermos em direção ao sutil pensamento que nos une, que nos costura como uma agulha pálida repleta de fé e esperança.

Marcello Lopes