26 de novembro de 2015

Tabacaria - Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

(Trecho de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa)

4 de novembro de 2015

# 150 - Ele



Durante anos mantivemos uma sintonia inédita até hoje, revelando cumplicidade e afeto, temos um diálogo arrojado e muitas vezes extremamente carinhoso que dá testemunho do nosso amor, do esforço que fazemos para dar certo.

As afinidades entre nós foram suficientes para vencer as diferenças.

A posteridade dos meus versos se encarrega de tornar-nos ainda mais em sintonia com esse sentimento que marca nossos encontros, um amor que no início foi desprestigiado pelos amigos que esqueciam a força que um coração têm.

Superamos certas atitudes reticentes dos parentes, poetizamos a vida graças ao nosso empenho em criar amizade onde passávamos.

Como nosso amor cresce os amigos abandonam o tom vago que caracterizava suas opiniões e levantam a voz em um coro destacando nossa caminhada, os pontos positivos nos momentos cruciais em nossa vida.

Uma mulher e um homem em meio a multidão, provocando o pessimismo a cada verso, aproximando os esperançosos através de ironias sutis e versos repletos de reconhecimento.

Você, minha querida me faz transparente, se vê a minha alma nos versos que te dedico, extravaso nas linhas o que eu quero ser na vida.

Admiro sua força em responder rapidamente aos obstáculos que insistem em nos atrapalhar, adoro o jeito extraordinário que seu sorriso ressalta seus olhos.

Mesmo em nossos desentendimentos vão se esgotando melancolicamente e se findam quando deixamos o ego de lado e aceitamos a responsabilidade dos nossos erros, compondo esse diálogo poucos ressentimentos e dores esparsas.

Se nessa caminhada instigante merecemos a atenção de como procuramos durante anos nos entender, os olhos brilham convertendo a energia que circula entre nós em compreensão e transborda felicidade.

Acordamos juntos todos os dias, evidenciando a intimidade, a revelação de duas almas intensas, compatíveis e até mesmo semelhantes.

Ao abrir os olhos vejo seu corpo prometendo um querer bem, uma franqueza que me enche os olhos, o peito e a vida.

Com um sorriso no rosto, você me analisa e com sua coerência me traduz através de um emaranhado de sentimentos, desejos e imagens.

Esse reconhecimento me impede de alucinar desenfreadamente, e assim meus versos, textos e estranhezas se esforçam no intuito de melhorar a convivência.

Sim, você minha querida é linda, que ao acordar sem maquiagem, candidamente despenteada busca meu peito, aproximando o ouvido do meu coração no momento em que este quase para de felicidade, e na ausência da batida encarna a vigorosa musa que ressuscita seu poeta sem vida.

E assim, tem início mais um dia.

Marcello Lopes